quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A arte em que acredito

Eis que navegando daqui e de lá, fuir para no blog do Gregoy. E não pude resistir em trazer para cá este texto:


A arte em que acredito

Cada vez mais percebo o quanto a arte que me toca é uma arte contestadora, uma arte não voltada para a sedimentação do que já é conhecido, uma arte não cômoda, não institucionalizada, não apenas bela. Tenho pensado que a arte deveria trazer em seu cânone alguns anti-mandamentos, opostos aos mandamentos bíblicos, sendo que o principal deles, na minha tendenciosa opinião, seria ‘mata o teu pai e a tua mãe’ (em oposição direta ao cristão ‘honra o teu pai e a tua mãe’). A necessidade imposta pela ordem ‘honra’ limita a criação àquilo que pode ser compreendido e reconhecido (sob forma de prêmios ou de aperto de mãos) pelos ‘pais’ (amigos, mestres, antecessores, sociedade, pares). A arte-honra é uma arte eternamente medrosa, dependente dos aplausos, escrava de lágrimas antecipadas. A arte-honra não ousa, ou quando ousa é tão ousada quanto um buquê de rosas enviado em um dia comum. A arte-honra é uma arte segura como uma aliança dourada no anular esquerdo. Não aceita traições.

A arte-mata, o avesso da arte-honra, não tem obrigações. A sua única obrigação é consigo mesma (como um corpo que reconhece em si intestinos e frieira tanto quanto alma e coração). A arte-mata caga. A arte-mata não deve satisfações à sociedade porque não nasceu dela e não é para ela que vive. A arte-mata não depende de parabéns e incentivo público e reconhecimento dos pares. Enquanto a arte-honra é o que criamos ao nosso redor para termos uma suposta segurança (patrimônio, casamento, crenças, planos de saúde, promessas), a arte-mata simplesmente é, como nós somos. Enquanto a arte-honra tem os olhos voltados para o amanhã, sempre querendo saber sobre que solo estará pisando, a arte-mata nada sabe do depois porque não é isso que lhe interessa. Não nega dores e ferimentos e erros e suicídios. Não nega nenhuma possibilidade. Nada lhe é proibido. É essa arte, a arte-mata, a única arte em que acredito.

Por Gregory Haertel - http://rosetaseespinhos.blogspot.com

Um comentário:

Charles S. disse...

Curti muito esses conceitos... dão nomes aos bois. Uma ferramenta interessante para se pensar e de se pesar as produções dentro da genérica concepção de ARTE. Me surge agora um exercício (divertido até) de tentar classificar nossos trabalhos nessa dualidade.