domingo, 25 de outubro de 2009

Carta Aberta para Clóvis Reis sobre Mobilidade Urbana

Caro Clóvis Reis

Costumo ler e ouvir muitos absurdos na imprensa local, mas nunca tive a mínima vontade de responder formadores de opinião como Tonet, Ostermann e Alexandre José. Não respondo porque sempre desconfio de que as coisas que eles dizem, não se tratam necessariamente de suas opiniões, mas estes absurdos são maneiras de gerar polêmica e permitir a circulação de uma leitura muito rasteira de sociedade

Mas quando li seu artigo em defesa dos automóveis intitulado “Aumento da área Azul” senti a necessidade de me manifestar. Se escrevo é porque sei que sua opinião é sincera e que você, assim como outros, foi sendo obrigado a utilizar o automóvel privado na medida em que as outras possibilidades de locomoção foram sendo restringidas. Além disso, sei que em uma sociedade em que a regra é sobrepor os interesses privados sobre os interesses coletivos, a confusão entre direitos e privilégios é uma constante.

É para garantir os privilégios do teu carro que admitimos a morte anualmente de um milhão de pessoas no trânsito mundialmente, sem contar as mortes decorrentes de doenças ligadas a poluição atmosférica. Por isso, não basta campanhas moralistas que centram o problema na juventude e no consumo de bebidas, pois o carro em sua essência é uma grande massa de metal se arremessando sobre outros carros e pessoas. Atualmente qualquer deslocamento na cidade implica esquivar-se destas máquinas de destruição.

Para garantir os privilégios do teu carro é que foram reduzidos os espaços de convivência pública nas cidades. Seu barulho é constante, seu gás é sufocante e somente o espaço que ocupa para o estacionamento é muito superior a área que a maioria das pessoas do planeta utilizada para viver.

Para garantir os privilégios do teu carro é que a Furb precisou comprar e devastar os terrenos que circundam a Universidade. E como se não bastasse, para garantir seu conforto e sua segurança toda a cobertura do espaço foi tomada por pedra e cimento, impedindo a existência de ambientes humanamente mais agradáveis com gramados, árvores de sombreamento, bancos e mesas em lugares onde as pessoas possam ter uma sociabilidade saudável (como é comum nas grandes Universidades). Além disso, esta minoria que faz uso do carro para se deslocar para a Furb, impossibilita a existência de um terminal de ônibus que garantiria o acesso dos alunos e servidores de Blumenau e das cidades vizinhas;

Para garantir os privilégios do teu carro é que a Furb e o Giassi construíram a passarela sobre a Rua Antônio da Veiga, já que valoriza o fluxo dos automóveis e torna a vida do ciclista e pedestre ainda mais complicada. Se subir pela passarela é preciso caminhar um trecho de pelos menos uns 60 metros a mais. Se insistir em atravessar pela faixa corre-se o risco de ser atropelado, já que com a passarela, ocorreu um aumento da velocidade naquele trecho.

Em nenhuma sociedade deste planeta estes privilégios podem ser vistos como direitos. O automóvel privado, assim como as mansões na beira do mar, não pode ser universalizado e por isso a defesa de seu uso é imoral. Além disso, está mais do que provado de que a saída para os problemas de mobilidade não significa a construção de mais vias para circulação. Tais empreendimentos são resoluções provisórias e têm um alto custo econômico, social e principalmente, ambiental.

Apesar disso, não acho que tenhamos que acabar completamente com o automóvel privado em nossa sociedade contemporânea. Mas tenho certeza que o seu uso precisa ser duramente restringido e aqueles que querem garantir a permanência de tais privilégios, precisam pagar por isso. Muitas cidades que investiram em uma mobilidade urbana humanizada, aumentaram significativamente a tributação na produção, compra e circulação de automóveis. Afinal, se seu uso é privado, seus custos não podem ser socializados em detrimento da maioria da população. Diante disso, sou favorável a maior taxação do uso do automóvel em Blumenau. E quero dizer mais: que os impostos cobrados dos proprietários de automóveis sejam revertidos a fundos públicos de mobilidade. Tal medida permitiria um investimento significativo no transporte coletivo, nas ciclovias e na humanização das nossas cidades.

Abraços,

Ricardo Machado


Para conferir o artigo do Clovis Reis acesse:

http://www.clicrbs.com.br/jsc/sc/impressa/4,183,2694747,13382

3 comentários:

Márcio Cubiak disse...

Excelente, Ricardo. Respostas são necessárias. Precisamos criar a polêmica, para não que a sociedade não 'estacione'em interpretações rasteiras e destinadas a manter discursos e práticas inviáveis.

Grande abraço!
Márcio Cubiak

Viegas Fernandes da Costa disse...

Tens razão na tua reflexão Ricardo, ewntretanto, há de se considerar algumas coisas.
No caso específico de Blumenau, tenta-se inverter o princípio da mobilidade. O que a prefeitura propõe, ao ampliar a taxa da Área Azul, é elitizar ainda mais a ocupação do espaço público. Não se trata de substituir o transporte privado por alternativas públicas eficazes e acessíveis, mas de restringir a ocupação do espaço público. Não creio que a alternativa seja taxar o estacionamento, simplesmente, como propõe a prefeitura de Blumenau. Esta é, também, uma visão muito rasa do problema. Tal medida beneficiaria aqueles que dispõem de maior poder econômico, bem como os proprietários de garagens particulares. Há de se considerar, ainda, os usos do transporte privado, que nem sempre é individual. Antes de se criminalizar os proprietários de veículos, o poder público precisa investir em alternativas de transporte, subsidiar o transporte público, reduzir custos de passagens rodoviárias, ferroviárias, aeroviárias e hidroviárias, aplicar efetivamente a legislação de trânsito etc.
O aumento da tarifa da área azul não vai reduzir as vagas de estacionamento privado em espaço público, mas facultar sua ocupação apenas àqueles que dispõem de maiores condições financeiras (e que hoje se incomodam por não terem onde estacionar, apesar de possuirem seu carro do ano).
Tens razão, Ricardo, quando defendes o transporte público, sua qualidade e acessibilidade, bem como o transporte cicloviário etc. Mas penso que a questão da tarifação deve ser melhor discutida, bem como outras medidas que o poder público municipal vem tomando, como pintar ciclofaixas sobre as calçadas, restringir o acesso de ônibus intermunicipais ao centro da cidade entras medidas.
Outro aspecto há ser debatido é o da acessibilidade. A mobilidade urbana vai muito além da relação automóvel X pedestre, mas diz respeito também às barreiras arquitetônicas, tanto em vias quanto em prédios públicos ou que prestam serviços públicos, como é o caso do Registro Civil de Blumenau...
Enfim, debate fundamental!!!
Abraço,
Viegas

Anônimo disse...

Obrigado Viegas pela colaboração no debate. Mas permita-me reafirmar algumas questões:
1 - O problema é que o custo de um carro é muito alto. Atualmente quem paga uma parcela é o proprietário, mas a outra parcela é a população em geral que paga. Mesmo não tendo carro, eu pago pelo seu uso através da perda da qualidade de vida na cidade e pelo alto direcionamento de verbas públicas que priorizam este tipo de mobilidade.
2 - É evidente que esta política precisa ser acompanhada pelo investimento verdadeiro em outras formas de mobilidade. É tão evidente que optei por nem abordar no texto. Mas o importante é marcar que estas políticas só vão ter eficácia na medida em que tivermos restrições verdadeira no uso do automóvel. As coisas precisam caminhar juntas, mas em nossa sociedade atual a mais dificil é a segunda, pois estamos prestes a fazer a Declaração Universal dos Direitos dos Automóveis (e que certamente estaria acima da dos Humanos)
3 - Elitizar? Poder ser. Mas o que é certo é de que não podemos ter em nossos horizontes a defesa do automóvel como uma forma mais justa e igualitária. O direito a mobilidade não é a mesma coisa que o direito ao carro. O carro não pode estar no mesmo patamar que as reinvindicações do direito a saúde, educação, moradia etc. Mas este é as melhor forma? Talvez não, mas se tratando de uma sociedade onde o valor material é fundamental, me parece que a única maneira de restringir o uso do automóvel é através da taxação sobre seu uso.

É isso....vamos dialogando.
forte abraço
Ricardo