quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A bicicleta de Charles Steuck

A bicicleta de Charles Steuck
Viegas Fernandes da Costa
Há algumas semanas estive na exposição “Des_locamentos”, no SESC/Blumenau, conhecendo um pouco da arte contemporânea produzida a partir de Blumenau, e me provocou em especial a obra de Charles Steuck que, apesar de não possuir título, vou chamar aqui de “A bicicleta”.
Trata-se, na realidade de uma instalação. Uma vetusta bicicleta suspensa por fios, sólida e escura, que projeta sua sombra na parede. Sombra que em muito lembra, seja por suas cores (sim, é sombra colorida), seja pelo traço impressionista, o autorretrato de Vincent Van Gogh. E a analogia não se dá apenas no aspecto estético, mas por me parecer, também, “A Bicicleta” faceta biográfica do sujeito Charles Steuck.
Se a bicicleta “real”, a bicicleta objeto da produção em série, desprovida de cores e leveza – apesar de suspensa por fios imperceptíveis – , obriga-nos a levantar os olhos; impõe-se tão somente como meio, como nave que remete à realidade íntima do seu significado para o artista. Porque Charles nos convida mesmo é para a outra bicicleta, essa que efetivamente toca o chão, a diluída em cores, transfigurada pelo olhar e pelo delírio, entretanto mais real, porque humana, porque memória. É o sonho de Charles Steuck que se materializa nessa bicicleta prisma. Não o sonho do artista, mas do menino de antanho que pedalava sonhos pelas estradas empoeiradas em um tempo que já não é mais, senão pela arte.
É na arte que Charles resgata as cores e os riscos da sua infância, as infindas possibilidades de uma bicicleta nas mãos de uma criança. E é a arte que nos possibilita, ainda que no suporte efêmero de uma instalação, a permanência de uma memória que grita no homem maduro e nos provoca, público, a pedalarmos também nossos sonhos e nostalgias.
Blumenau, 02/12/2009

3 comentários:

Daiana disse...

Bela leitura do trabalho do Charles.
Bravo.

Daiana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ali Assumpção - Liquidificador disse...

Belo, mesmo!! gracias, viegas!!
abraço!