sexta-feira, 6 de maio de 2011

Crítica e comentarios sobre "escritos da carne"

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Escritos da carne
Viegas Fernandes da Costa
Difícil definir a exposição fotográfica “Escritos da Carne” como erótica, porque o erótico não se institui enquanto gênero. Apesar do artigo “O que é erótico” da historiadora Carla Fernanda da Silva (autora do projeto que resultou na exposição), publicado no catálogo de “Escritos da carne”, o conceito de erótico, na produção cultural, está principal

mente ligado aos juízos de valor. Muito daquilo que no passado fora publicado e julgado na condição de pornográfico (este sim gênero), passa à condição de erótico quando sujeito a um tratamento que lhe confere estatus. O erótico, assim, associa-se a uma ideia de classe. A pornografia, quando transferida para uma galeria de arte, transforma-se em erótico. Se na sua origem a palavra pornografia significa escritos de prostitutas, o erótico deriva do deus grego Eros, como bem lembra Carla no citado artigo. O primeiro, venal; o segundo, metafísico. Chamar de erótico o conjunto de fotos que compõem a exposição seria, portanto, conferir-lhe um sentido artístico do qual esta se distancia, já que se trata de carne. Sim, de carne e, por que não dizer, de terra. Isto não significa dizer, porém, tratar-se de imagens pornográficas. Não, distanciam-se do gênero porque não é ao nosso desejo sexual que apelam, mas propõem olhares sobre nossa ideia contemporânea de amor, sensualidade e corpo. Assim, “Escritos da carne” permite-nos refletir a respeito daquilo que um conjunto de artistas pensa a respeito destes temas.
Inaugurada na última sexta-feira (29/04) no sugestivo porão da Fundação Cultural de Blumenau, “Escritos da Carne” inscreve-se na cena artística como uma produção coletiva. Conceitualmente pensada por Carla Fernanda da Silva, reúne 21 fotografias, a maior parte delas de casais fotografados por Aline Assumpção, Charles Steuck, Carla Fernanda da Silva, Carlos Lobe, Ivan Schulze, Mariana Florêncio e Sally Satler. Importante registrar que os fotógrafos compartilham a autoria das imagens com seus modelos, já que a estes coube selecionar textos, que entendiam na condição de “eróticos”, para serem grafados sobre seus corpos – talvez dialogando com o filme “O livro de cabeceira” (1996), dirigido por Peter Greenaway. A escolha do texto, por si só, já imprime um conceito à imagem fotograficamente construída. Mais, boa parte dos modelos são casais de fato, e participam da vida artística e intelectual do Vale do Itajaí, assim concorrendo efetivamente no resultado final do trabalho para o qual posaram. Tal fato enriquece ainda mais a exposição, já que permite um olhar para além do estético. Um olhar que se embrenha também no sociológico, porque nos permite questionamentos e conjecturas acerca do entendimento dos modelos apresentados nas fotografias a respeito da imagem de si e da relação com seus parceiros, bem como do seu entendimento de “união”. E neste sentido a exposição é bastante reveladora.
Sob o aspecto estético, “Escritos da carne” chama a atenção. A construção da exposição no porão da Fundação Cultura l de Blumenau e a qualidade técnica das fotos, surpreendem. Por se tratar de fotos de diferentes autorias, apresentam também diferentes técnicas. Entretanto, tematicamente, apresentam casais nus em momentos de intimidade – com uma exceção, da qual tratarei adiante. Não há, porém, ousadia nas poses do s modelos, algumas reproduzindo clichês românticos e, no caso da fotografia de Mariana Florêncio, aprese ntando uma linguagem bastante comum aos anúncios de catálogos publicitários. A ousadia maior, talvez, seja a apresentação de três casais homossexuais na exposição, tratados com absoluta naturalidade, da mesma forma como o são os casais heterossexuais. Proposta importante, principalmente se considerarmos que no presente momento o Congresso Nacional discute a união civil de pessoas do mesmo sexo.
Naquilo que alude aos conceitos, chamam especial atenção as fotografias de Ivan Schulze que retratam uma mulher adentrando uma Igreja. A imagem como que fotografada por detrás de um vidro que reflete uma vegetação outonal. O texto escolhido é “A metafísica do corpo”, de Carlos Drummond de Andrade. A possibilidade de leitura da foto de Ivan permite um olhar sacralizado do corpo da mulher, um corpo que dialoga com o cosmos, que alude a ideia de um Uno. Também as fotografias de Aline Assumpção e Charles Steuck que retratam um casal (ela grávida) com os corpos ora mimetizados à vegetação, ora cobertos de argila, são carregadas de simbologia. Diferentemente da imagem de Ivan, metafísica, a de Aline e Charles alude ao corpo telúrico, ao corpo que é, antes de tudo, natureza. Na fotografia do casal que dança, os corpos cobertos de argila (impossível não lembrarmos aqui de “A dança”, de Henri Matisse), a referência ao corpo enquanto impulso vital, enquanto movimento, que também se liga a um uno, este, entretanto, absolutamente físico.
Foto: Carlos Lobe
Por fim, quero destacar a proposta que, na minha opinião, mais se destaca na exposição: a imagem de uma mulher nua (Beli Lessa) fotografada por Carlos Lobe coberta de lama, sentada, cabeça pendida, cabelos desgrenhados, que escreve com as próprias mãos seu texto sobre a pele, permitindo-nos vislumbrar um pouco da carne branca sob a lama. O texto, de autoria da própria Beli Lessa, diz: “O lodo lambuzou minha camisa / Branca, ofuscante, cheirando lama. / Não tive medo, arranquei-a exibindo / Brancas, serenas e nuas mamas.” Há uma eloquência no texto e na imagem que impressionam, principalmente porque a proposta dialoga diretamente com o contexto social em que estes dois artistas (Beli e Carlos) estão inseridos. Imagem e texto referem-se não apenas à tragédia de 2008, que soterrou propriedades e pessoas no Vale do Itajaí, mas também a um ordenamento moral prussiano, comum na região. Arrancar a roupa e exibir, sem medo, serenas e nuas mamas, é ato ousado que afronta esta moral e que exige ordenamento diferente. Eis aqui a arte, sim, na imagem e nas palavras de Beli, refletindo e questionando, revelando e provocando a sociedade que a lê. Vale lembrar ainda que na foto de Carlos Lobe não há um casal. A mulher está sozinha, sim, apenas ela e a lama, sem pactos hipócritas, sem idealizações de amor. Não há seios, há mamas, assim como não há mais “civilização”, arrancada que foi junto com a camisa. O que resta é apenas esta força a távica do corpo, da arte.
Se, no geral, “Escritos da carne” apresenta imagens esteticamente muito bem produzidas, mas que reproduzem um discurso idealizado a respeito de amor, sensualidade e corpo, Beli Lessa e Carlos Lobe souberam ousar e propor, trazendo algo realmente significativo e provocador.

Comentários:


Regi disse...
Só tu mesmo pra me esclarecer dessa forma! Amei!
Blogger Beli disse...


Será que não caberia uma reflexão sobre o que está entre pornográfico e erótico para a contemporaneidade local? Existem estes pólos e o que lhes conferem estes conceitos...assim como "arte", assim como tudo que não conseguimos nomear. Talvez, por enquanto, só possamos sentir, só possamos viver. Como a "homossexualidade" que antes era vivenciada com outros nomes, ou através do silêncio (com ressalva para seus gozos em espaços escondidos), e agora, exposta, e claro, talvez pela discussão em voga nos meios de comunicação, na Academia, no jurídico, etc. Aí comporto isto à "Escrito da Carne": sua ousadia, em minha opinião, é inegável. Isto,principalmente pensando a "moral prussiana", de onde emergiu o projeto da profa Carla e foi constituída por diversos ângulos, cenários e luzes fotográficas sobre o erótico, sobre o corpo, sobre as artes...está no âmbito de mostrar o gozo escondido da nossa cidade. Um gozo que não é só grito de minutos entre trabalho, trabalho, trabalho, igreja, trabalho, carro, casa, trabalho, dinheiro...prazer que se estende nas artes, na arte, nas fotografias, nos textos, nas músicas, no entanto, mais que isto: a arte de viver. Sim, parece tão clichê falar da arte de viver, mas é isto que resta entre tanto trabalho, fumaça, carro, e toda a cretinice, cinismo da cidade (ou disto que distingue parte da cidade). Enquanto a cidade move, os corpos que se permitem, seja romanticamente ou não, sozinhos ou não, mas que se permitem os prazeres, que se desejam, que se reinventam inseridos nisto tudo...podem criar e recriar o que é o erótico, o que é o pornográfico, o que é o amor, o que é o romântico. "Escritos da Carne", ao meu ver, é uma compilação de pensamentos, corpos, prazeres, que podem provocar outros corpos, e está perfeitamente no espaço cultural (local/moral) que deveria estar, e por isto este resultado. Cada fotografia abre um conceito, que podem ser reflexo da sociedade cristã-ocidental com sua mídia invasiva, como também refletem as peculiaridades locais... aqui na região, qualquer reflexão acerca dos prazeres,dos corpos, dos amores e das formas de vivê-los é original e instigante! Vamos gozar a vida! Sentir prazer! Criar! Entre tecnologias que são criadas para sufocar, sentir prazer; entre os livros; entre folhas secas; entre a natureza; sob o cunho da ascese divina lepo trabalho, a batina, ela nua; entre tintas de cores fortes; isto é apenas recorte e representação de tantos corpos que aqui conseguem reinventar como nômades do próprio corpo. Aqueles que ilimitam as possibilidades de experimentar, e não só sexualmente, ou seja, também por outros meios. Por isto as artes...nem sempre só o sexo, por isto erótico...porque perpassa a noção prontificada sobre tudo e concebe novos prazeres. A exposição dialoga com os corpos "viajantes", sexuados, assexuados, simplesmente embriagados do prazer de viver entre tudo que aniquila, inslusive as nomenclaturas, as cruzes, os credos. Porém, isto é só o início, talvez. Quem sabe possamos ver em outro momento,corpos e pessoas fisicamente incompatíveis com o padrão: cegos, paraplégicos, enfim, para citar alguns; casais de três, quatro ou cinco de homens e/ou mulheres...queers, homos, heteros e aquilo tudo que ainda não foi designado. A exposição é um flash no escuro, e espera outros flashes, acho que é por aí. Por isto penso que todas as propostas são maravilhosas, e talvez, conversando sobre o processo, fica ainda mais bacana. Se não fosse estimulante, nem se escreveria sobre ela, não é?

Valeu, Viegas!




veja mais do projeto em:

Um comentário:

j u l i a n a f l o r e n c i o disse...

Oi Viegas.

“O erotismo pode ser visto de diversas formas, depende de quem olha e como olha. Cada um com sua particularidade e liberdade para achar o que é erótico para si, livre de críticas.”
Você criticou em particular do trabalho da minha irmã (a fotografa Mariana Florencio) onde eu e meu namorado somos “Os modelos”.
Na sua critica você disse que não ouve ousadia nas poses, é porque você não imagina o trabalho que foi fazer essas fotos.
Meu namorado é de origem alemã ,analista de sistemas e muito conservador. E eu totalmente ao contrário, inclassificável, maquiadora e nascida no mundo das artes.
E essas fotos por mais clichê romântico(como você disse), é nada mais nada menos do que a “nossa realidade”.
É o que é erótico “para nós” e não para os outros. O romantismo ainda existe(para nós), é isso que a gente queria passar. Unimos o romântico, com o sensual, pouca nudez, luzes claras, corpos e rostos bonitos(não temos culpa), e por final amor. Gostamos muito dos cheiros da pele… mais ainda não inventaram como fotografar cheiros. Essas fotos retratam exatamente o que é erótico “para nós”, sem lama, máscaras, montagens, personagens, penumbra, tintas, vidros…etc. Não tivemos vergonha de mostrar nossos rostos nus e crus,não estamos totalmente nus,mais o que esta,dá para ver poros,pelos e sinais de nascença que temos em nossas peles.
Bem,já escrevi um jornal aqui,muito boa a sua critica,mais o que me fez escrever esse comentário,foi o fato de você ter criticado um único o trabalho,o qual eu sou modelo. Agora eu quero que você me responda:
O que é erótico pra você Viegas?
Espero a resposta.
Obrigado
Juliana Florencio e Leandro Ricardo Nunes.

…”Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba,
e que ninguém a tente complicar,
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer”.
Osvaldo Montenegro