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terça-feira, 26 de julho de 2011

Carta aberta para Tiago




“A hierarquia não é somente piramidial: o escritório do chefe está tanto no fundo do corredor quanto no alto da torre”. (Deleuze).



Sei de onde você escreve e porque escreve. Em grande parte seus novos argumentos já são velhos. Nem por isso desconsidero-os. É justamente por sua relevância que resolvi escrever este breve texto buscando estabelecer algum diálogo. Afinal, aquilo que para você se apresenta como uma linha de fuga pode funcionar justamente como uma linha de captura.


Já faz muito tempo que não é mais possível compreender o Estado da mesma forma que os teóricos da ciência política moderna o consideravam: de um lado sua imagem libertadora e redentora de todas as necessidades humanas, e de outro, um enorme monstro repressor que através de seus aparelhos ideológicos suprimem as possibilidades de emancipação humana. Os movimentos juvenis de 1968 nos ensinaram que o problema da política não está mais nas estruturas, mas está nos desejos, nos fluxos, nos afetos e nas possibilidades de criação. Ao invés de ter no Estado o elemento central de problematização, passou-se a refletir sobre as relações de poder que produzem formas de linguagem, subjetivação, resistência e saberes. Para além do caráter repressivo do poder, buscou-se seu elemento produtor da história e de relações em sociedade, ampliando de forma significativa a concepção de política que não poderia mais estar restrita nas formas de representação burocrática estatal. Mas como fica o Estado em meio a isto tudo? Ora, o Estado é mais um destes lugares onde se materializam estas relações de poder e investem de forma privilegiada na sociedade através de um conjunto de instituições que foram constituídas nos últimos 200 anos.


Há uma novidade nisto tudo que você percebeu em seu artigo. Durante muito tempo as artes e ciências estiveram ligadas a financiamentos privados. Isto fazia com que o artista tivesse que estar submetido diretamente ao gosto de quem assumia o papel de mecenas no processo de criação. Evidentemente, que ao longo da história da arte podemos indicar inúmeras subversões desta regra, mas de uma maneira geral o mercado sujeitava a arte (fazendo uso da expressão do título de seu artigo). Foi somente nas últimas décadas que o conceito de “cultura” foi incorporado na linguagem estatal: basta lembrar que o Minc foi criado somente em 1985 e até hoje passa por um processo de estruturação governamental. Novamente, para além do Estado, foi neste mesmo período vivemos processos de monumentalização da cultura em nossas sociedades, construídos discursivamente e politicamente através da disneyficação das cidades, folclorização, espetacularização da vida cotidiana. Este processo investe de maneira significativa em nossa subjetividade e restringe outras possibilidades de criação artística e intelectual que colocam em questão as próprias relações de poder. Sim, no capitalismo, cultura tornou-se mais uma mercadoria – mas seu significado está em disputa. Por isso, não podemos mais conceber a arte de forma essencialista e romântica que desconsidere as políticas de Estado e do próprio mercado. Mesmo que de forma crítica, nossas ações precisam se dar a partir das potencialidades apresentadas pelo mundo contemporâneo.


Desta forma, as reivindicações de políticas públicas vão muito além do financiamento do fazer artístico, mas concentram-se na criação de políticas de fomento e fruição para a sociedade em geral. O velho “faça você mesmo” que pode ter sido sinônimo de liberdade em algum momento, hoje se apresenta justamente como a forma de restringir outras possibilidades de existência para as pessoas. Por que um jovem não pode ter um horizonte maior do que um balcão de uma loja no shopping ou uma máquina de costura em uma facção?



Abraços

Ricardo Machado, historiador

ver: http://www.clicrbs.com.br/jsc/sc/impressa/4,182,3413311,17609

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Carta Aberta de minha renúncia da Presidência do Conselho do Museu de Arte de Blumenau



A presidente da Fundação Cultural de Blumenau, Marlene Schlindwein, processou uma artista que participou de um Salão promovido dentro desta entidade, e esta mesma artista que também integrava seu próprio Conselho Municipal de Cultura. Nesta semana esta ex-conselheira pagou uma multa ao Fundo Penitenciário Nacional. Isto tudo porque fez críticas a atual gestão da Fundação Cultural de Blumenau, e foi processada por desacato.





É isso mesmo que estamos vendo, uma volta aos tempos da ditadura? E o pior é que até agora o poder público se mantém omisso diante de tudo que vem acontecendo na Fundação Cultural. Fica claro, desta forma, que o governo de João Paulo Kleinubing está conivente com tais posturas.



Eu, até então atual presidente do Conselho do Museu de Arte de Blumenau me sinto desrespeitado ao ver uma também conselheira de Blumenau sofrer um ato autoritário e covarde como este, haja vista que esta representante da sociedade civil nunca esteve sozinha nas críticas a Fundação Cultural. Agora pergunto, como poderei me manifestar dentro (ou fora) da Fundação com um precedente destes? Repressão. Este é o sentimento presente, e a cada dia que passa é maior a certeza que foi exatamente esta a intenção.





A classe artística e a comunidade vêm há anos se reunindo em encontros setoriais e conferências municipais de cultura para tentar de fato criar políticas públicas de cultura para Blumenau (não, ainda não temos) e tudo isso pra quê? Para ficar eternamente no plano das idéias, graças a esta gestão de banho-maria. Estamos há tempos falando para as paredes, podemos citar varias demandas levantadas nas conferências que até hoje não saíram do papel, e até de várias outras que já existiam e foram extintas, a citar o Casarão das Oficinas, que ao invés de ser regularizado em suas pendências, foi extinto, e hoje está em processo no Ministério Público.



Faz sentido que o governo municipal coloque na administração uma representação tão inoperante e equivocada. Marlene não é somente um bom “escudo” do governo de JPK. Trata-se de um belo tampão, uma conveniente rolha de poço, para que tudo siga muito, mas muito lentamente, e para conseguir isto há um arsenal de desculpas. E é assim que vamos nos arrastando, e claro, isto já não é novidade para ninguém, estamos sim bem informados, Dona Marlene. O que estamos vendo não é ilusão de ótica, o rei está nu. A presidente em entrevista recente novamente tentou nos impor de que as críticas a Fundação só acontecem por falta de conhecimento, ou seja: os loucos somos nós.



E quem foi que disse que precisamos de uma presidente que saiba tocar violão ou fazer bordado? Queremos alguém que nos represente e nos respeite enquanto cidadãos, que nos ouça, nos responda, e que de fato nos mantenha informados.



Se eu estava no conselho do MAB até hoje foi por acreditar que minhas humildes colaborações poderiam acrescentar algo para a cidade, independente de meu desprezo ou não com o atual governo, e sem interesses de conveniências.





Mas esta cumplicidade do governo municipal com tudo isto que vem acontecendo nos mostra o quão indiferentes estão com as nossas des-políticas culturais, e o quanto estamos fazendo papel de capivaras, nossa paciência e nossa razão estão há muito tempo sendo subestimadas.





Por fim, renuncio em ato de repúdio aos constantes desacatos cometidos pelo nosso atual Governo Municipal de Blumenau, que, em seu silêncio, gritam comigo e conosco.








Charles Steuck



Ex-Presidente do Conselho do Museu de Arte de Blumenau






Blumenau, 29 de junho de 2011.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Presidente da Fundação Cultural de Blumenau processa ex-conselheira por desacato. Pode?

(extraído de Respública Cultural/Márcio Cubiak)

Breve retrospectiva


Cabe, diante dos movimentos atuais, apontar cronologicamente a ordem dos fatos, e centralizar as informações que saíram na mídias. Tudo isso diz respeito, neste momento, ao fato de a Presidente da Fundação Cultural de Blumenau, após reunião com a classe cultural em abril de 2010, ter movido uma ação judicial na qual acusa a ex-conselheira de cultura de Blumenau, Aline Assumpção, de crime de desacato. Isso mesmo, esse tipo de crime muito comum em épocas de ditadura.


Mas não se pode perder de vista que isto é apenas a ponta do Iceberg "Titanic". Marlene é o resultado de um governo que distribui cargos a partidos políticos sem critérios técnicos, só na base da politicagem. O governo João Paulo Kleinubing aprofundou a omissão do governo na área, desmontando instituições e se ausentando de formular políticas públicas, essa coisa tão bonitamente republicana. 


Então...
1) Carta aberta da Conselheira Aline Assumpção trazendo o caso a público - AQUI
2) Carta aberta do Conselheiro municipal de cultura Márcio Cubiak, esclarecendo os motivos de sua saída do conselho - AQUI.
3) Textos de artistas e produtores culturais de Blumenau em apoio a ex-conselheiro Aline: Gregory Haertel (Dramaturgo, AQUI); Cleiton Rocha (ator e pesquisador de teatro, AQUI); Rafael Koehler (ator e pesquisador, AQUI); Rodrigo Ramos (professor universitário, jornalista e produtor cultural, AQUI); Ricardo Machado (professor universitário, historiador e produtor cultural, AQUI), Conferência Municipal de Cultura - Etapas setoriais (AQUI).
4) Renúncia ao mandato de Conselheira (Carla Fernanda da Silva)  (atualização do Escambau)

4) Terça-feira, 21/06, o Jornal de Santa Catarina traz ampla cobertura sobre o fato, com:
4.1 - Coluna do Maicon Tenfen - AQUI;
4.2 - Matéria jornalística assinada por Ruca Souza: "Vazio Cultural", sendo capa do Caderno Lazer; Artistas "Também entram em Atrito" e "Gervásio Luz mantém opinião" (ex-presidente do conselho editorial da Editora Cultura em Movimento).

4.3 - OPINIÃO DO SANTA|Ambiente hostil (atualização do Escambau)
4.4 - Bancarrota cultural | ARTIGO | Viegas Fernandes da Costa - Artigos - Jornal de Santa Catarina (atualização do Escambau)



Como grande pano de fundo, cabe leituras de:
A IMPORTÂNCIA DO PROIBIDO - Marco Antonio Mattedi - AQUI 
DISCUSSÃO SOBRE FINANCIAMENTO A CULTURA  - AQUI
DISCUSSÃO SOBRE FINANCIAMENTO A CULTURA - AQUI 
CONFERÊNCIA MUNICIPAL DE CULTURA - AQUI
SOBRE FUNDAÇÃO CULTURAL E POLÍTICAS PÚBLICAS - AQUI, AQUI, AQUI
AMPLIAÇÃO DO PRÉDIO DA FUNDAÇÃO - AQUI 
 



Enfim, se assunte a respeito do tema. Blumenau autoritária mostrando-se na cultura.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Devolvam as Nossas Línguas

Por Rafael Koehler


Naquela noite de abril de 2010 nos reunimos para protestar e pedir respostas a tantas perguntas que a mandatária da Fundação Cultural de Blumenau se negava a responder. Não, não foi um fato isolado e não foi naquela noite que decidimos pegar nossas panelas e vozes para tentar, mais uma vez, sermos ouvidos.
O Titanic Fundação Cultural de Blumenau já havia esbarrado no seu iceberg muito antes, logo após a enchente de 2008 devastar a cidade. A nomeação da nova mandatária da FCBLU (que admitiu ao Jornal de Santa Catarina que a sua nomeação era fruto de negociações partidárias) deveria ser aclamada pelos videntes, porque ao ser nomeada a mesma comparou os artistas de Blumenau aos violinistas do Titanic, que animam o povo enquanto o barco afunda. E realmente, o barco começou a afundar naquele ano. Desde então os artistas da cidade decidiram lutar contra a previsão da mandatária.
Em agosto de 2009 mais de 200 artistas organizaram e participaram do festival “Nosso Inverno”, que tinha como foco o protesto contra a falta de política pública cultural em Blumenau. A mandatária apareceu apenas na abertura do evento, viu o espetáculo manifesto e não voltou para o debate no final do Nosso Inverno. Ali teve início a não conversa com os artistas e a união dos mesmos iniciando o “Movimento Cultural Devolvam os Nossos Braços”.
Em abril de 2010 mais um buraco era feito no casco do Titanic: a falta de explicação e o atraso do pagamento dos artistas participantes do Salão Elke Hering. Na noite do dia 14 daquele mês nos reunimos em frente à FCBLU e iniciamos o nosso protesto em busca de respostas, não apenas para o pagamento do Salão, mas também para o fechamento do Casarão das Oficinas, o problema com a Escolinha de Artes, entre outros enigmas. A reunião deveria ter acontecido uma semana antes, porém a mandatária nos deixou esperando, e mais uma vez ficamos sem respostas.
Naquela noite tínhamos panelas, colheres e vozes. Tínhamos a união e representávamos os mais de 200 artistas do “Movimento Cultural Devolvam os Nossos Braços”. As panelas e as colheres se uniram antes da reunião, e foram silenciadas para que as vozes de quem as tinha em punho tomassem conta do espaço.
Na carta aberta que escrevi naquela noite, após a reunião, relatando os fatos, digo o que aqui faço questão de repetir:

“A reunião teve início e durante, aproximadamente, duas horas vimos uma “representante” da cultura se justificando, colocando a culpa no jurídico, nas gestões anteriores, na burocracia, nos artistas, etc. Somente após a artista Aline Assumpção falar sobre a desorganização do Edital do 9º Salão, citando algumas das falhas ocorridas, somente depois de não ter para onde fugir, de não ter como culpar outros, a presidente (...) assumiu que houve falhas durante o processo do 9º Salão, e disse que 21 projetos foram aprovados ontem. Isso mesmo: ONTEM. Após a pressão dos artistas a Fundação reconheceu o seu erro: “Edital errado, sim, horrível”, disse (...) a diretora administrativa e financeira”

Aline não foi a única a falar, porém foi a mais sensata, e como (na época) era uma das representantes dos artistas no Conselho Municipal de Cultura, falou em nome de todos. Tanto é que nenhum dos presentes se manifestou de forma contrária às palavras de Aline.
Não recordo com precisão a ordem dos fatos, mas desde então o Casarão das Oficinas, onde eu ministrava aulas de teatro, foi fechado; o telhado da Escolinha de Artes desabou e tudo foi demolido; o Museu Fritz Müller só acumula problemas; a Feira do Livro se tornou uma vergonha; a mandatária se sentiu ofendida e abriu um processo contra Aline Assumpção, na época Conselheira Municipal de Cultura, que em sua fala representava a classe artística e a população blumenauense; Márcio Cubiak e Aline Assumpção, dois Conselheiros Municipais de Cultura, pediram a destituição de suas funções; e os espaços da Fundação, antes gratuitos aos artistas, começaram a ser cobrados.
Sim, a mandatária conseguiu cortar os braços dos artistas e da população que clama por apoio às artes, braços estes que tentavam desesperadamente fechar os buracos no Titanic para que a água não entrasse. A luta continuou, mesmo sem braços, a agora a mandatária corta as nossas línguas, para que não possamos mais utilizar as nossas vozes pedindo socorro aos céus.
Hoje, 20 de junho de 2011, completa um ano que não moro mais em Blumenau. Atualmente resido no Rio de Janeiro/RJ e busco aprimorar a minha arte sem esquecer da importância que a cultura blumenauense tem na minha vida. São com os artistas de Blumenau que continuo a desenvolver meus projetos. O Titanic Fundação Cultural de Blumenau afundou e meus amigos artistas estão boiando em mar aberto tentando sobreviver. De onde estou me jogo no mar, não para resgatá-los, porque não cabe a mim fazer ressurgir do fundo da escuridão marítima a Fundação, mas para lutar com eles pelo direito de livre expressão.


Rafael Koehler
Ator
Grupo K - Teatro
http://waguater.blogspot.com/2011/06/devolvam-as-nossas-linguas.html

sexta-feira, 17 de junho de 2011

sobre a inacreditável série de coisas que vêm acontecendo com a Cultura em Blumenau

por Gregory Haertel, sexta, 17 de junho de 2011 às 16:40

 
 "Bom, já faz tanto tempo que é difícil lembrar dos fatos em sua exatidão. Quando me esforço para recordar, lembro que era um fim de tarde, quase começo de noite, e que havia um grupo armado com panelas e vozes em frente ao prédio da Fundação Cultural. O grupo que lá se encontrava não era um grupo enorme, desses de fechar avenidas. Também não era um grupo de amigos (recordo-me que houve brigas e discussões entre os membros que ali estavam). Tampouco eram as afinidades artísticas o que unia aquelas pessoas. A única coisa que fazia com que aquelas pessoas estivessem ali, naquele local, naquela hora, era o descontentamento que já vinha de muito com os rumos que a administração da Fundação Cultural vinha tomando e, principalmente, a vontade de que, a partir da manifestação que se instaurava, tivesse início um processo de mudança que culminasse em uma nova forma de se enxergar a arte nesta cidade. Um processo de mudança realmente aconteceu. E muita coisa mudou. Para pior.
Quando a reunião (algumas vezes adiada) começou, eu já não estava mais ali. Saí porque tinha algum outro compromisso (que não recordo), mas saí tranqüilo. Muito tranqüilo. Saí tranqüilo porque participariam da reunião pessoas em quem eu confiava plenamente, no caráter e nas opiniões. Pessoas, entre outras, como Pépe Sedrez, grande amigo meu e uma das pessoas mais sensatas em termos de posicionamento político que eu conheço. Pessoas, entre outras, como Márcio Cubiak, de quem sempre admirei o espírito combativo e o embasamento das argumentações. E pessoas, entre outras, como Aline Assumpção, artista que nunca se negou a participar das lutas pelas coisas em que acredita e que, na época, Conselheira Municipal de Cultura, também não se furtou a participar da luta em que todos que ali estávamos (e muitos que não compareceram) acreditávamos. Eu saí do pátio da Fundação Cultural tranqüilo por saber que estaria, naquela reunião, bem representado. Eu saí do pátio da Fundação Cultural de Blumenau naquele fim de tarde, quase começo de noite, tranqüilo por saber que as vozes que se ergueriam durante a reunião seriam o eco das panelas que eu tinha ajudado a agitar um pouco antes, em plena rua XV de Novembro. E eu saí de lá, do pátio da Fundação Cultural de Blumenau, para ir não me recordo para onde, por saber que, em um processo democrático, a minha voz, erguida pela garganta de outros, seria ouvida. Mas a minha voz não foi. A minha voz, representada pela voz de outros, foi legalmente calada. E o processo de mudança, tão almejado, teve início. Pelo avesso.
De lá para cá, uma Conselheira Municipal de Cultura (Aline Assumpção) foi processada por, no exercício da função de me representar, ter tido uma palavra sua interpretada como ofensa pessoal pela mandatária da Fundação, e dois Conselheiros (os acima citados Márcio Cubiak e Aline Assumpção), depois de diversas decepções e incômodos, pediram a exoneração de suas funções. A minha voz, aquela que saiu tranqüila do pátio da Fundação Cultural de Blumenau naquele quase começo de noite, hoje se sente mais fraca. Muito mais fraca. Tão fraca que eu quase duvido que, enquanto escrevo, a minha voz consiga falar. Tento. Sai baixo. Bem baixo. Tão baixo que quase não escuto. Mas me acalmo. Mesmo baixo, muito baixo, a minha voz ainda teima em falar".

quinta-feira, 16 de junho de 2011

como posso até ir para a cadeia por criticar a Fundação Cultural de Blumenau

Carta aberta aos artistas e cidadãos desta nau
(cai...não cai...?... ei, estamos todos na mesma nau!)

OU: 

Por que eu saí do Conselho Municipal de Cultura e como posso até ir para a cadeia por criticar a Fundação Cultural de Blumenau

Após muito refletir, me aconselhar, após noites não dormidas, cápsulas e mais cápsulas de diferentes fármacos para me anestesiar os ânimos, resolvi fazer o que deveria ter feito há quase um ano.

Meus caros, não meus, e não tão caros assim, o que vão ler a seguir é uma tentativa de relato, do que vivi nos últimos meses, tentativa de esclarecer episódios, posturas, silêncios,  arrependimentos, desgostos e transformações.

A questão que me faz neste momento vir a público é um fato extremo, uma das pontas de tudo que tem se passado em nosso cenário cultural. Como muitos sabem, e muitos não sabem,  em março último renunciei a minha cadeira de Conselheira Municipal de Cultura de Blumenau, eleita pela sociedade civil. Os motivos são alguns...

Um dos pontos mais sérios é que estou sendo processada judicialmente pela presidente da Fundação Cultural de Blumenau por crime de desacato, porque um dia, lá em abril de 2010, durante uma reunião com vários artistas para discutir problemas com o edital e o pagamento dos artistas aceitos no Salão Elke Hering (após panelaço, discussões e uma série de reuniões desmarcadas, lembram?? http://umescambau.blogspot.com/2010/04/resultado-ou-nao-da-reuniao-com-fcblu.html) eu perguntei  à diretoria da Fundação Cultural: “Por que vocês não são honestos e assumem que o edital tem uma série de problemas e erros e que vocês demoraram muito a se posicionar, que só se manifestaram agora, quando os artistas começaram a protestar?” Imediatamente minha expressão foi contestada: “Você está nos chamando de desonestas?/ Nunca fui tão ofendida, na minha vida!!”. Peraí, eu não as chamava de desonestas, eu lhes pedia honestidade e transparência, nesta questão específica, honestidade em admitir a sequência de erros e omissões (já se passavam dois meses de uma lista de e-mails e vai-e-vens entre o jurídico da fundação e artistas de todo o Brasil que participavam do Salão sem um retorno efetivo da Fundação). Após uma discussão sobre o significado das palavras honesta/desonesta/honestidade, uma intervenção da professora Noemi, a questão pareceu esclarecida. Naquela mesma noite, a presidência da Fundação foi ainda criticada por muitos outros artistas que a chamaram de “incompetente”, de “inapta”, sugeriram que se retirasse do cargo e aí por diante.

Mas, por algum motivo obscuro (nem tanto, na verdade, afinal eu sempre devo ter sido uma pedra em seu sapato) a presidência da FUndação abriu um boletim de ocorrência contra mim, especificamente, juntamente com um outro artista, que tinha se manifestado de maneira muito distinta da minha naquela noite ( a quem eu havia pedido, inclusive, que se acalmasse, a quem eu havia falado que não estávamos ali para atacar pessoas, mas para discutir e resolver questões de política cultural; o mesmo artista que me acusaria naquela mesma noite, de proteger a presidente e de conivência com a Fcblu, me ameaçando por e-mail e, posteriormente, espalhando para toda a classe que eu estava vendida para a Fundação).

Bem, mas passada a fatídica noite de abril, com aparentemente 'tudo resolvido', foi só em agosto, numa sexta-feira, que chegando em casa após uma semana de trabalho, que recebi uma intimação da delegacia, em que devia me apresentar como autora de um crime, o qual eu desconhecia. Passei um fim de semana infernal, chorando, perdendo o sono, e tentando me lembrar se eu havia ferido alguém, batido o carro, roubado galinha, mas nada me vinha à mente. Eu que só tinha pisado numa delegacia como repórter, tinha agora o constrangimento de comparecer mediante intimação, como acusada de um crime que eu sequer sabia qual era. Quando vi de que se tratava, mal pude acreditar, eu jamais imaginaria que pudesse ser processada por tal motivo, haviam se passado meses, na semana anterior, inclusive, eu estava justamente ajudando a presidente da Fundação Cultural a reunir argumentos e redigir um documento para uma reunião com o prefeito; e ela ‘utilizou’ meus serviços voluntários e idealistas, em silêncio, sem me contar que estava me processando.

Saindo da delegacia, imediatamente procurei a então presidente do Conselho Municipal de Cultura, Noemi Kellermann e o então vice-presidente Jamil Dias. Quase tão assustados quanto eu com o processo, resolveram marcar uma reunião com a presidência da FCBLU. No dia seguinte nos reunimos e após, muita conversa (uma manhã e uma tarde) e ponderações, após os Conselheiros terem declarado que testemunhariam a meu favor e que esta situação só geraria mais desgaste, chegamos a um acordo, a presidência desistiria do processo e eu manteria segredo sobre o ocorrido. 

Pois bem, fiquei quieta, e com o sapo atravessado, diante da tonta (e egoísta e covarde, admito) esperança de que o processo seria retirado e o assunto se encerraria ali. Uns dias depois fomos informados pela presidente da Fundação, que ela solicitara a suspensão do processo, não havia mais com que se preocupar. Sendo assim, eu não compareci a audiência que estava marcada para o início de setembro, em que poderia apresentar minha defesa e ter direito a uma conciliação.
De lá pra cá, confesso que perdi muitas de minhas ilusões, mas, mesmo calejada e decepcionada, com um sorriso amarelo e sem olhar nos olhos daqueles que me acusavam, continuei meu trabalho como conselheira. Aliás, não tenho dúvidas, vergonha ou falsa modéstia de dizer, que trabalhei muito, muito mesmo, para representar dignamente a sociedade civil, os artistas e colegas que me escolheram para tal cargo, procurei manter nossas reivindicações sempre na pauta do conselho, fundação e da prefeitura, incomodei a todos, com muitas críticas.... Trabalhei, penso hoje, muito mais do que a causa merecia, trabalhei cegamente, apaixonadamente, de peito aberto (isso não se faz, eu já passei dos 30).

Foi uma batalha constante junto com outros conselheiros, diante da ausência de respaldo e retorno do poder executivo, para construir politicas culturais sólidas, e fazer com que as demandas das conferências pudessem ser atendidas (que fique claro, não somos mais crianças, que não há milagres, que falamos de grandes transformações que acontecem no pequeno, no médio e no longo prazo). Tivemos que contar com a impaciência dos artistas, críticas pertinentes, e adeprejamentos insanos (renderia um filme de terror) - estávamos numa briga por políticas culturais sólidas, políticas públicas, o que punha consequentemente fim a uma tradicional política de balcão, de apadrinhamentos e benefícios pessoais, a que muitos artistas já haviam se acostumado. 
Enfim, cansada do chumbo de cá e de lá, com minha vida pessoal em frangalhos(sim, porque as consequências já invadiam meus espaço privado), resolvi renunciar ao Conselho, e ficar quietinha no meu canto – cuidar da minha vida privada, da  minha casa, pagar minhas contas, fazer as unhas, não é isso o que esperam de nós??
Mas, eis que, um mês e meio depois do meu recolhimento, chega nova intimação judicial. O processo não fora arquivado e eu estava sendo ainda processada por desacato. 
Mais dias de angústia, que só cessarão (e eu espero que cessem) no próximo dia 28 de junho, quando terei uma audiência com o juiz. O processo diz que sou acusada de crime de desacato,  cuja pena é de seis meses a dois anos de detenção. Como sou primária, não tenho qualquer antecedente, tenho direito a um benefício que antecede a tramitação no judiciário (denúncia do Ministério Público), chamado de transação penal, em que posso escolher pagar uma multa ou uma pena restritiva de direitos (serviço comunitário ou algo semlhante), para não dar continuidade ao processo. Mas por outro lado, perco o direito de provar minha inocência, de me defender - ou seja, aceito uma pequena pena para me poupar de todo desgaste de um processo judicial.
Novamente os conselheiros  Noemi e Jamil intemerdiaram a questão e foram esclarecer o caso com a presidente da Fcblu. Ela mostrou o documento em que renuncia da denúncia, mas admitiu que não acompanhou se o caso havia mesmo sido encerrado. A presidente se prontificou em ver o que poderia ser feito, mas sua advogada já nos informou que elas não tem mais nada a fazer. Parece que, por se tratar de servidor público, o indivíduo privado perde poderes sobre o processo, que passa a ser de interesse do poder público.

Enfim, eu, que já fui rotulada de “o verbo”, e que tentei ficar calada diante dos fatos, apenas para não me desgastar ainda mais, para não me expor ainda mais, volto a abrir minha boca. 
Eu falo porque acredito no direito a liberdade de expressão, e na minha inocência desta acusação feita no calor dos ânimos; falo porque me entristeço de ver o esvaziamento do Conselho Municipal de Cultura, e a desesperança; falo porque sinto pena que a classe artística tenha preferido se desmobilizar, e que cada um ande mais preocupado com o seu quadrado; falo porque sou idealista incurável, porque ainda prefiro a paixão dos jovens à hipocrisia e à estabilidade; falo porque me julgo covarde e egoísta de não ter publicizado cada fato e minha franca opinião na hora, no momento certo.... Talvez seja tarde, mas, como diz o ditado, antes tarde do que nunca.

Aline AssumpçãoArtista visual, produtora cultural, jornalista, professora, Ex-Conselheira Municipal de Cultura.

Você pode repassar esta carta a quem você quiser, ou publicá-la. Só peço que ao repassar ou republicar, o seu conteúdo seja veiculado/disponibilizado na íntegra, sem cortes. (já basta de mal entendidos!)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Nova diretoria do Conselho Municipal de Cultura de Blumenau


Fundamental registrar a nova composição da Diretoria do Conselho Municipal de Cultura de Blumenau, gestão 2011:


Jamil Dias, presidente -técnico de Cultura do SESC e;








 Melita Bona, vice-presidenta - professora da FURB.








Os grandes desafios, na perspectiva Deste conselheiro, são: instituir mecanismos de diálogo mais aberto e constante com a comunidade de artistas, produtores e outros trabalhadores da cultura; convencer empresários e comerciantes e alguns profissionais liberais, ou seja, parte considerável da elite local/regional, de que o investimento em cultura é altamente benéfico para a cidade e sua "marca"; aprovar na câmara de vereadores as mudanças institucionais urgentes, visando aprimorar e democratizar a gestão pública nesta área, através da implementação do Sistema Municipal de Cultura, da aprovação e legitimação do Plano Municipal de Cultura, e outros desafios postos. Por fim, o ano de 2011 se mostra central para a transformação do conselho municipal de Cultura em Conselho Municipal de Políticas Culturais, tornando-se referência e parceiro para a produção cultural, para além do simples financiamento das atividades e projetos culturais.


Em resumo, o grande foco para os trabalhos do Conselho é torná-lo uma referência simbólica importante para o universo dos fazedores/consumidores de cultura. Não é pouca coisa. Mas também muito pertinente e estratégica a escolha de duas pessoas ligadas a instituições que já são parte da cultura local:  o SESC, com seu papel de ser quase uma secretaria municipal de cultura, devido a sua relevância e, a FURB, 2o maior orçamento público municipal e formador de capital social, político e econômico nesta cidade.


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Extraído de:
http://respublicacultural.blogspot.com/2010/12/nova-diretoria-do-conselho-municipal-de.html?spref=tw

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O AI-5 digital avança. Eles preferem o PiG (*)

    Publicado em 04/11/2010

Azeredo e Serra: internet, só pelas costas

O Conversa Afiada reproduz post do Viomundo, de Luiz Carlos Azenha:

CUT: O AI-5 digital avança


Democracia tucana


27/10/2010


Na calada da noite, avança projeto de deputado do PSDB para censurar internet e quebrar sigilo de internautas


por Luiz Carvalho, no site da CUT


No início de outubro, em um Congresso Nacional esvaziado enquanto o Brasil discute as eleições, o Projeto de Lei (PL) 84/99 do senador Eduardo Azeredo, do PSDB de José Serra, foi aprovado em duas comissões na Câmara.


Também conhecido como “AI-5 digital”, uma referência ao Ato Institucional nº 5 que o regime militar baixou em 1968 para fechar o parlamento e acabar com a liberdade de expressão, o PL permite violar os direitos civis, transfere para a sociedade a responsabilidade sobre a segurança na internet que deveria ser das empresas e ataca a inclusão digital.


O projeto de Azeredo passa também a tratar como crime sujeito a prisão de até três anos a transferência ou fornecimento não autorizado de dado ou informação. Isso pode incluir desde baixar músicas até a mera citação de trechos de uma matéria em um blog.


Conheça os principais pontos do projeto do Azeredo.


1. Quebra de sigilo


Ironicamente, o PL do parlamentar ligado ao partido que se diz vítima de uma suposta quebra de sigilo nas eleições, determina que os dados dos internautas possam ser divulgados ao Ministério Público ou à polícia sem a necessidade de uma ordem judicial. Na prática, será possível quebrar o sigilo de qualquer pessoa sem autorização da Justiça, ao contrário do que diz a Constituição.


2. Internet para ricos


Azeredo quer ainda que os provedores de acesso à Internet e de conteúdo (serviços de e-mail , publicadores de blog e o Google) guardem o registro de toda a navegação de cada usuário por três anos, com a origem, a hora e a data da conexão.


Além de exemplo de violação à privacidade, o projeto deixa claro: para os tucanos, internet é para quem pode pagar, já que nas redes sem fio que algumas cidades já estão implementando para aumentar a inclusão digital, várias pessoas navegam com o mesmo número de IP (o endereço na internet).


3. Ajudinha aos banqueiros


Um dos argumentos do deputado ficha suja reeleito em 2010 – responde a ação penal por peculato e lavagem ou ocultação de bem –, é que o rastreamento das pessoas que utilizam a internet ajudará a acabar com as fraudes bancárias. Seria mais eficaz que os bancos fossem obrigados a adotar uma assinatura digital nas transações para todos os clientes. Mas, isso geraria mais custos aos bancos e o parlamentar não quer se indispor com eles.


O que acontece agora?


Atualmente, o “PL Azeredo” tramita na Câmara de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara e aguarda a posição do relator Júlio Semeghini, do PSDB-RJ.


A má notícia é que foi esse deputado que garantiu, em outubro de 2009, que o projeto aguardaria o desenrolar dos debates para seguir tramitando. Mas, Semeghini fez o contrário do prometido e tocou o projeto adiante.


Com a provável aprovação, a última alternativa para evitar que vire lei e acabe com a democracia digital no Brasil será o veto do próximo presidente.

(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

http://www.conversaafiada.com.br/cultura/2010/11/04/o-ai-5-digital-avanca-eles-preferem-o-pig/

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O CAMPO DA CULTURA, OS ATORES LOCAIS E POLÍTICAS PÚBLICAS DE CULTURA

O CAMPO DA CULTURA, OS ATORES LOCAIS E POLÍTICAS PÚBLICAS DE CULTURA1.

É necessário que o poder público consiga delimitar o que é Cultura e qual será o cenário de sua atuação enquanto agente fomentador. Para isso, o Estado precisa considerar as duas dimensões da Cultura propostas por BOTELHO: a antropológica e sociológica, distinguindo-se a cultura no plano cotidiano daquela que ocorre no circuito organizado. Esta postura permite contextualizar as características próprias de cada uma, identificar quando essas dimensões se articulam, produzindo um cenário promissor para definir políticas públicas adequadas, quais as estratégias que serão transformadas em programas, projetos e ações.
Esta é uma atitude elementar, especialmente no poder público, com seus poucos recursos financeiros dedicados ao setor, que criaram aberrações no financiamento à cultura nas últimas décadas, quando foram deixados para os departamentos de marketing a definição do que é produzível ou viável enquanto projeto, numa perspectiva unidimensional e instrumental de Cultura.
Porém, essas duas dimensões estão articuladas e tratá-las apenas isoladamente pode não gerar resultados. Para isso, dois movimentos são necessários: um, das próprias sociedades, em que o exercício real da cidadania, da participação e da organização é capaz de produzir demandas por políticas. O outro é do próprio poder público, delimitando seu universo de atuação, mas em conjunto com outras secretarias governamentais, pondo a criatividade a serviço da utopia, numa perspectiva de entender a cultura de maneira multidisciplinar.
A postura dos governos, na delimitação de sua atuação, é para melhor utilizar os escassos recursos financeiros e nem para se perder no jargão “Cultura É Tudo”. É desejável, no século XXI, diante de tanta reflexão teórica sobre Cultura, uma ação governamental que trabalhe para romper com a dicotomia erudito X popular. Entre o erudito e o popular, existem relações de troca, um processo de hibridização que precisa ser observado.
Esta postura demanda do poder público: tomar a cultura em sua diversidade, sem hierarquias, numa relação horizontal e de rede de diálogos.
É preciso entender a importância da cultura como um recurso contemporâneo, suas ligações com o desenvolvimento local, economia, tecnologia e quiçá, meio ambiente. É preciso romper a “boca torta” para a palavra gestão, ao mesmo tempo em que eu sei que Cultura é muita mais que só gestão… é do universo do simbólico.
Veja um exemplo disso: em virtude do tipo de financiamento predominante no país nas duas ultimas décadas, as dinâmicas de produção cultural passaram por diversas transformações e tensões: o abandono de artistas, produtores e comunidades inteiras a própria sorte, numa jornada por departamentos de marketing intermináveis; ao mesmo tempo, esse quadro fomentou a associação e a criação de formas de articulação entre artistas, produtores, públicos e comunidades de arte e cultura, numa atuação criativa frente aos poucos mecanismos estatais de fomento e financiamento. Como interagir com um cenário desses? Quais as perspectivas futuras? Que tipo de diálogo é possível? Quais as dinâmicas postas em funcionamento?
O espaço local é o locus privilegiado para ter a articulação dessas duas dimensões da cultura através da demanda dos grupos por direitos e da ação do aparato governamental. O poder público municipal deve ter um papel presente nesse esferal. O cenário local é de pluralidade de interesses ativos, arenas cujos atores conhecem seus interlocutores, sabendo de quem cobrar e com quem se articular. O mesmo ocorre no sentido inverso: do Estado para a Sociedade, nas várias direções possíveis das teias de relações.
O Estado deve aparecer não como dirigente, mas como articulador e fomentador. Para isso, é necessário ter em mente a importância das políticas públicas, no caso, políticas culturais adequadas, que busquem parcerias na iniciativa privada, na sociedade e nas outras instâncias governamentais.
Uma política cultural consistente exige dos seus gestores a capacidade de antecipar problemas, visão de longo prazo, planejador, ser criativo o suficiente para sugerir financiamentos alternativos para a produção cultural, entender das dinâmicas do aparato governamental, buscar entender a diversidade cultural, pensar as lógicas da contemporaneidade e como a tecnologia pode servir como ferramenta para o fomento às artes e à cultura.
Este gestor precisa entender acerca da cadeia produtiva da cultura que é formada pelos criadores e produtores; organizações culturais; empresas investidoras; poder público; imprensa cultural; meio acadêmico e público da cultura. Precisa entender sobre o tripé produção – distribuição – fruição. Isso porque as políticas públicas de cultura devem compreender o sistema em sua totalidade articulada.
É preciso insistir nisso: enquanto temos de um lado a cadeia produtiva da cultura, cada vez mais capacitada para os desafios contemporâneos, temos de outro, gestores sem sensibilidade e mesmo interesse em aprofundar políticas, em conhecer contextos, em experimentar.
No caso de Blumenau, algumas questões são urgentes para uma visão sistêmica e articulada entre as duas dimensões da cultura: mapear o consumo e os hábitos culturais dos públicos; organizar sistema municipal de indicadores culturais; romper com a lógica do evento e pensar em programas, projetos e ações com responsáveis, prazos, recursos e resultados; ampliar os recursos do Fundo Municipal de Cultura e pensar novos mecanismos de financiamento, como editais específicos para áreas; adesão ao Sistema Nacional de Cultura, espécie de SUS da Cultura; ampliar os recursos destinados a Fundação Cultural; rever o organograma administrativo da estrutura, modernizando a administração; instituir o Plano Municipal de Cultura; tornar o Conselho Municipal de Cultura órgão deliberativo e; iniciar política de implantação de Centros e Casa de cultura nas comunidades de Blumenau.
No caso da Universidade, esta pode inserir-se como agente fomentador, tal qual o Estado, mas num papel de complementaridade. Focar na capacitação dos profissionais envolvidos na cadeia produtiva da cultura, participar da produção dos indicadores culturais; identificar e analisar a cadeia produtiva da cultura em Blumenau e região; formar público fruidor de arte, cultura e humanidades, além de ser parceiro no desenvolvimento autônomo de grupos e comunidades da região.

Por fim, pergunto: Já que o poder público municipal é tão importante assim, será que Marlene, Neuza, Nico e Kleinubinho dão conta?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOTELHO, Isaura. Dimensões da Cultura e políticas Públicas.
COSTA, Leonardo Figueiredo. Uma reflexão sobre as Políticas Públicas e a Questão da Formação na Área Cultural.
DURAND, José Carlos. Cultura como objeto de Política Pública.
RUBIM, Albino. Políticas Culturais: entre o possível & impossível.

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1 Márcio José Cubiak, mestrando no Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Regional de Blumenau – FURB. Graduado em Ciências Sociais.