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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Blumenau: política cultural e exclusões.

Márcio Cubiak , Respública Cultural

Blumenau, município catarinense localizado no chamado “Vale Europeu” acumula alguns anos seguidos de descaso e miopia em se tratando de políticas culturais (o que é uma política cultural[1]?). Essa situação é pano de fundo de uma batalha entre o campo artístico e cultural do município contra a surdez e mudez do prefeito Kleinübing (DEMo ou ex-DEMo, dá no mesmo)

Mas um fato precisar destacado: essa tensão cultural acompanha o desenvolvimento da Colônia, em 1850, até os dias de hoje, em que realizamos conferências de cultura anualmente, fruto de uma política cultural que perdura há mais de 160 anos. O peso da elite local, imigrantes alemães ou os chamados “teuto-brasileiros”[2] a constituição da memória simbólica coletiva é enorme, com investimentos sistemáticos em toda a estrutura política do município, entre 1850-1940, em torno do nacionalismo alemão tipicamente século XIX, criando seus mitos[3] através da desvalorização do Outro, como no caso dos açorianos, tidos como “preguiçosos e não feitos ao trabalho” (SEYFERTH, 1981; FERREIRA, 2000; FROTSCHER, 2007). O período pós 1945, quando termina o Governo Vargas e a política de nacionalização tem seu abrandamento, a elite local buscou ressignificar o discurso cultural dos anos anteriores na condição, agora, de mercadoria. Nos anos 1960 são acionados os primeiros esforços na consolidação de uma estrutura turística, na construção de uma cidade-imagem turística.  Os anos 1980, marcados por duas grandes enchentes, é catártico, momento do “renascimento alemão”, amplificando mitos, promovendo festas e exclusões.

A história local, portanto, ainda é marcada pela monocultura, numa simplificação e reinvenção da tradição que, diante de crises estruturais do município (urbanística, ambiental, modelo de desenvolvimento), se apega a memória do passado e a sua venda como souvenir. Quando se fala de Blumenau, são esses valores cultivados pela elite que “aparecem”, emergindo uma cidade distorcida. O fato é que a produção cultural local é, em sua maioria, menosprezada pelo poder público, pela publicidade do município, pois a cidade-imagem só amplifica o seu “quadrilátero fotogênico” (FLORES, 1997). A grande produção cultural de Blumenau está caoticamente territorializada nos bairros afastados do centro, na “margem” simbólica da exclusão. Olhos azuis e loiros cabelos vendem toalhas e cervejas.

Os bairros blumenauenses possuem sociabilidades específicas, mas também, características da tal periferia. Nela, invisíveis, encontram-se pessoas, muitas delas nascidas em Blumenau, outras vindas de municípios e estados diferentes. São comunidades que possuem dinâmicas próprias e que articulam inúmeras referências culturais: urbana, rural, da cidade natal e da nova cidade. O resultado é uma identidade cultural gerada a partir da tensão entre universos simbólicos de diferentes espacialidades e territorialidades. Essa multiterritorialidade (ver HAESBAERT, 2006), no entanto, não é abstrata: essas comunidades são, concretamente, espaços da desigualdade, da ausência dos serviços públicos de qualidade, o espaço da ocupação ilegal.
 
A política cultural, portanto, praticada pelo poder público, com aval de segmentos da elite local, está centrada na atualização constante desse mito civilizatório, presente no nacionalismo do século XIX e na Colônia de Blumenau, também. O que quero dizer é que Blumenau tem sim uma política cultural, alimentada por são reminiscências de cunho étnico com os princípios da democratização cultural[4] com a quase totalidade dos esforços centrados nas artes eruditas. O governo municipal e seu equipamento de cultura, neste sentido, seguem na contramão do debate nacional e internacional.

As tensões culturais, geradas pela invisibilidade cultural promovida pela elite local com o apoio e financiamento do governo municipal, ainda podem ser mensuradas atuando fortemente no território chamado Blumenau. Nos últimos anos, alguns segmentos da sociedade e do campo cultural blumenauense resolveram encampar a idéia de políticas públicas de cultura, de aprimoramento institucional dos equipamentos e da gestão cultural, mas, acima de tudo, de denunciar a monocultura financiada pelo governo municipal. Houve, por exemplo, cinco edições da conferência municipal de cultura, que se tornou a principal arena da apresentação de demandas do segmento para a criação do seu Plano Municipal de Cultura. Mas a ‘boniteza’ acaba por aqui: todas as propostas sugeridas pelas cinco plenárias finais das conferências de cultura e que se tornaram documentos orientativos ao governo, foram ignorados. Isto é, a efetividade da conferência, em avanços institucionais por parte do governo, é nula! 

No último mês, veio a tona algumas situações crônicas que demonstram o esvaziamento do papel da Fundação Cultural de Blumenau, bem como da incompetência de seus gestores. Contramão total da história, a atuação do governo municipal de Blumenau ficou insustentável: não há mais clima para a permanência da atual presidente da fundação.


Além disso, o governo municipal, em 2009[4], diminui sensivelmente o número de trabalhadores internos da Fundação, especialmente os comissionados. Nada mesmo que 11 pessoas deixaram de exercer funções de gestão. Num país como o Brasil, em que comissionado é moeda de troca, poderia ser uma boa notícia. Mas sem comissionados e basicamente sem funcionários de carreira, a estrutura praticamente parou diante da demanda, sem dar conta do recado. 

Romper com a idéia da monocultura “teuto-brasileira” sem negá-la, juntamente com uma política cultural baseada no pressuposto da “cidadania cultural”, é apostar na abertura simbólica de Blumenau para a diversidade de suas expressões, acionando um extenso campo de possibilidades concretas para seu futuro, através do tripé “sustentabilidade-criatividade-cidadania”.


Referências Bibliográficas

CANCLINI, Nestor Garcia. Definiciones en transición. En libro: Cultura, política y sociedad Perspectivas latinoamericanas. Daniel Mato. CLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, Ciudad Autónoma de Buenos Aires, Argentina. 2005. pp. 69-81.
Acceso al texto completo:
http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/grupos/mato/GarciaCanclini.rtf

FERREIRA, Cristina. Identidade e cidadania na comunidade Teuto-brasileira no Vale do Itajaí. In: FERREIRA, Cristina. FROTSCHER. Méri (org.). Visões do Vale: perspectivas historiograficas recentes. Blumenau: Nova Letra, 2000, p.71-90.

FLORES, Maria Bernadete Ramos; WOLFF, Cristina Scheibe. Oktoberfest: turismo, festa e cultura na estação do chopp. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1997. 188p, il.

FROTSCHER, Identidades móveis: práticas e discursos das elites de Blumenau (1929-1950) /Méri Frotscher. -Blumenau: Edifurb : 2007,  240 p


HAESBAERT, Rogério. O Mito da Desterritorialização: do ‘fim dos territórios à multiterritorialidade. 2ª edição. Rio de Janeiro. Bertrand Brasil. 2006.

SAYFERTH, Giralda. Nacionalismo e identidade étnica: a ideologia germanista e o grupo étnico teuto-brasileiro numa comunidade do Vale do Itajaí. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1981, 240p.


[1] Para a Organização das Nações Unidas, Política Cultural diz respeito àquelas políticas relacionadas com a cultura, seja em nível local, regional, nacional e internacional, que são, ou focadas na cultura como tal, ou designadas para ter um efeito direto em manifestações culturais de indivíduos, comunidades e sociedades, incluindo a criação, produção, disseminação, distribuição e acesso as atividades, bens e serviços culturais. Para o MICHEL DE CERTEAU“a política cultural lida com o campo de possibilidades estratégicas; ela específica objetivos mediante a análise das situações e insere alguns lugares cujos critérios sejam definíveis, onde intervenções possam efetivamente corrigir ou modificar os processo em curso (1995, p.193)”. Para CANCLINI Los estudios recientes tienden a incluir bajo este concepto al conjunto de intervenciones realizadas por el estado, las instituciones civiles y los grupos comunitarios organizados a fin de orientar el desarrollo simbólico, satisfacer las necesidades culturales de la población y obtener consenso para un tipo de orden o transformación social. Pero esta manera de caracterizar el ámbito de las políticas culturales necesita ser ampliada teniendo en cuenta el carácter transnacional de los procesos simbólicos y materiales en la actualidad ( 2005, p.78). Para BARBALHO, programa de intervenções realizadas pelo Estado, entidades privadas ou grupos comunitários com o objetivo de satisfazer as necessidades culturais da população e promover o desenvolvimento de suas representações simbólicas”(2005, p.37).
[2] Primeira geração de nascidos pós imigração alemão para a região
[3] Como o homem civilizado capaz de transformar a floresta em cidade pelo seu espírito “empreendedor”.
[4] A Lei Complementar N° 704, de 29 de janeiro de 2009, altera a estrutura organização da Fundação Cultural de Blumenau estabelecida na Lei complementar N° 400, de 06 de maio de 2003

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Veja o que Blumenau reserva para a cultura em 2011

Guia apresenta os eventos confirmados de janeiro a dezembro

O que Blumenau reserva para o cenário cultural em 2011? O caderno Lazer do Santa desta quarta-feira traz um Guia Cultural 2011 com os eventos confirmados de janeiro a dezembro, entre teatro, artes visuais e literatura.

O destaque é que 2011 terá os dois principais eventos culturais da cidade, com o Salão Elke Hering, mostra contemporânea de artes visuais e o Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau. Além disso, projetos como o Fórum Nacional de Literatura de Blumenau, o Festfolk e o Festival Nacional de Teatro Infantil, também estão garantidos.

Faça o download da página clicando aqui, imprima e monte seu Guia Cultural 2011. Assim fica mais fácil se programar e participar dos principais eventos culturais de Blumenau.

Fonte: JORNAL DE SANTA CATARINA, 05/01/2011

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Orçamento de Cultura?

O Diário Catarinense publicou hoje (16/11), as previsões orçamentárias para 2011 das cinco maiores cidades de Santa Catarina. A LOA (Lei Orçamentária Anual) de Blumenau prevê R$ 1,3 bilhão no próximo ano, o maior aumento entre as cidades analisadas. Blumenau espera arrecadar quase o mesmo que Florianópolis.

No entanto, a descrição do orçamento por secretarias e fundações foi decepcionante. A Fundação Cultural e a Faema possuem os menores valores, com R$ 3,3 milhões e R$ 2,4 milhões, respectivamente.

A Prefeitura de Blumenau parece mesmo, pouco interessada na Cultura. A Fundação terá R$ 0,25%  do total orçado para a cidade, aparecendo atrás inclusive do setor de Comunicação, que tem previstos R$ 5,1 milhões.

Para ter uma noção da MISÉRIA que está sendo prevista para as artes, em Jaraguá do Sul, a Fundação de Cultural deles tem orçado para 2011, R$ 4,6 milhões. Isso que o orçamento total da cidade é de R$ 370 milhões, quase quatro vezes menos que Blumenau.

Os números devem refletir no Fundo Municipal de Cultura, que foi de R$ 400 mil este ano (enquanto Jaraguá do Sul teve R$ 750 mil). A lei atual diz que o Prefeito deve investir entre 0% e 20% do orçamento da autarquia no fundo. Isso mesmo, 0%.

Em Jaraguá do Sul, uma lei aprovada em 2007, exige um mínimo para o fundo, de 9,8% das receitas correntes. Por aqui, não temos essa garantia. Se um prefeito não quiser colocar nada, não coloca.
Citamos o exemplo de Jaraguá do Sul por ser uma cidade que tem a metade da população de Blumenau, e que é administrada pelo mesmo partido que governa a nossa cidade. O problema não está na sigla e sim no interesse pela Cultura. Itajaí e Joinville também possui valores muito mais altos no fundo para o setor.

O assunto deverá ser discutido nesse final de semana, na Conferência Municipal de Cultura.


(Giovani Ramos)

Extraído de http://controversas.com/2010/11/o-vergonhoso-orcamento-da-cultura/

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Cultura e os enlaces contemporâneos

A esfera da cultura é do domínio dos símbolos e a noção de desenvolvimento pertence ao domínio da racionalidade. Enquanto a primeira é constitutiva da sociedade, a segunda é datada historicamente, sendo intrínsecas as sociedades modernas e suas dinâmicas internas e relações com o mundo. O vinculo entre Cultura e Desenvolvimento é decisivo, na medida em que o segundo é influenciado pelo primeiro e vice-versa, gerando a diversidade cultural e as várias interpretações sobre o desenvolvimento (ORTIZ, 2008).
Na contemporaneidade, a Cultura assume lugar central nas discussões acerca do Desenvolvimento. Se em função do processo de acumulação a Cultura foi se desvencilhando da Religião até a constituição de um “campo cultural” próprio nas dinâmicas da modernidade, atualmente ocorre um fenômeno chamado de “transbordamento da cultura” para outros campos do conhecimento que refletem sobre o desenvolvimento como a Economia, a Ciência e Tecnologia, a Política, etc.

cultura e os enlaces contemporâneos
Neste sentido, as discussões em torno da Cultura mobilizam duas premissas ou porque não, promessas: de um lado, estudiosos apontam para o deslocamento da centralidade do geopolítico e geoeconômico para o foco geocultural. Da mesma maneira, conforme Samuel Huntington, a crescente importância da Cultura nas relações cotidianas e internacionais levará ao “choque de civilizações”. A idéia desse conflito surge nos anos 1970, sendo logo deixada de lado. Ainda assim, com os ataques terroristas aos EUA em 11 de setembro de 2001, esta abordagem é recolocada em cena. Porém, comungo da idéia de que o choque entre diferentes sociedades é fruta da desigualdade de acesso aos bens e serviços públicos e não das diferenças culturais.
Diante disso, encaro a “transbordamento da cultura” como o diálogo transdisciplinar no qual a Cultura passa a ocupar centralidade para além das fronteiras do seu “campo”, estabelecendo enlaces e constituindo conjunções (LOIOLA&MIGUEZ, 2007).
Podemos apontar alguns enlaces principais:
a) Politização da Cultura: disputas em torno de visões de mundo e pela hegemonia e direção intelectual e moral de uma sociedade.
b) Culturalização da Política: os candidatos a cargos executivos de todas as três esferas governamentais estão sendo obrigados pelos seus eleitores a tocar em assuntos culturalmente relevantes para suas sociedades, aborto, união civil de pessoas do mesmo sexo, descriminalização e legalização das drogas e uso de símbolos religiosos em repartições públicas, por exemplo;
c) Tecnologização da Cultura: a cultura transborda também para as tecnologias contemporâneas, através da reprodução técnica de textos/imagens/sons como o cinema e a fotografia; ou pelo surgimento do ciberespaço e, ainda, pela produção de bens simbólicos em torno da Indústria Cultural;
d)    Reterritorialização da Cultura; pode-se constatar o conceito de cultura na criação de espaços macro-regionais, como a Organização dos Estados Latino Americanos – OEA. Outro fator importante para a ampliação da importância conceitual da cultura no Território são os fluxos migratórios, geradores de hibridização de estilos de vida e de formas sociais.
e)   Cultura e Economia: neste caso podemos apontar a convergência entre ambas através da Economia da Cultura ou Economia Criativa, cada vez mais presentes nas estratégias de desenvolvimento e que abrange a produção, a circulação e o consumo de bens simbólico-culturais.
f)  Culturalização da Mercadoria: o crescente papel dos elementos simbólicos na determinação do valor da mercadoria.
O que considero como Cultura? Existe uma polissemia de significados em torno do conceito de cultura e essa a multiplicidade das definições acompanha a diversidade de interesses institucionais. Se o assunto for tratado por um antropólogo, estaremos diante de explicações que levam em conta aspectos simbólicos dos universos sociais. Porém existem consensos, necessária para a operacionalização do conceito e a aplicação em pesquisas e políticas públicas.

Podemos indicar:


a)  Recusa do Determinismo Biológico;
b)  Recusa do Determinismo Geográfico;
c) Cultura é uma construção histórica a partir da existência de relações entre os grupos humanos, sendo apreendida socialmente, carregando significados, convenções, mentefatos e artefatos que tornam inteligível a vida em grupo;
d)   A percepção de que a Cultura tem natureza dinâmica, mutável e plural e;
e) A pluralidade e a diversidade cultural não se compadecem de lógicas hierarquizantes, sendo esses resultados do etnocentrismo (não há cultura melhor ou pior).
Neste sentido, este artigo trilha a opção apresentada pela professora Isaura Botelho, que aponta para duas dimensões da cultura, igualmente importantes, e fundamentais para uma delimitação de estratégias de desenvolvimento com sustentabilidade: uma mais abrangente de cunho antropológico,
Na dimensão antropológica, a cultura se produz através da interação social dos indivíduos, que elaboram seus modos de pensar e sentir, constroem seus valores, manejam suas identidades e diferenças e estabelecem suas rotinas. Desta forma, cada indivíduo ergue à sua volta, e em função de determinações de tipo diverso, pequenos mundos de sentido que lhe permitem uma relativa estabilidade. (...) Aqui se fala de hábitos e costumes arraigados, pequenos mundos que envolvem as relações familiares, as relações de vizinhança e a sociabilidade num sentido amplo, a organização dos diversos espaços por onde se circula habitualmente habitualmente, o trabalho, o uso do tempo livre, etc. Dito de outra forma, a cultura é tudo que o ser humano elabora e produz, simbólica e materialmente falando. (...)
E uma mais restrita, de campo cultural num âmbito mais especializado (BOTELHO, 2001).
A dimensão sociológica não se constitui no plano do cotidiano do indivíduo, mas sim em âmbito especializado: é uma produção elaborada com a intenção explícita de construir determinados sentidos e de alcançar algum tipo de público, através de meios específicos de expressão. Para que essa intenção se realize, ela depende de um conjunto de fatores que propiciem, ao indivíduo, condições de desenvolvimento e de aperfeiçoamento de seus talentos, da mesma forma que depende de canais que lhe permitam expressá-los. Em outras palavras, a dimensão sociológica da cultura refere-se a um conjunto diversificado de demandas profissionais, institucionais, políticas e econômicas, tendo, portanto, visibilidade em si própria. Ela compõe um universo que gere (ou interfere em) um circuito organizacional, cuja complexidade faz dela, geralmente, o foco de atenção das políticas culturais, deixando o plano antropológico relegado simplesmente ao discurso (BOTELHO, 2001, p.74)
Desta forma, a noção de cultura é, atualmente, fundamental para se refletir e entender as dinâmicas socioeconômicas dos territórios, para a elaboração de estratégias de preservação de comunidades tradicionais, para a redefinição dos padrões de produção e consumo nas sociedades, enfim, para a refundação do conceito de Desenvolvimento num sentido multidimensional, baseado no manejo com sustentabilidade dos recursos naturais e humanos.
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ORTIZ, Renato. Cultura e Desenvolvimento. In.: Políticas Culturais em Revista, 1(1), p. 122-128, 2008 – www.politicasculturaisemrevista.ufba.br.
BOTELHO, Isaura. "Dimensões da cultura e políticas públicas", In São Paulo em Perspectiva 15(2, São Paulo: 2001,pp73-83.
LOIOLA, Elizabeth ; MIGUEZ, Paulo . Sobre cultura e desenvolvimento. In: III ENECULT Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, 2007, Salvador. (acesso: 16/04/2010, 22h44m -http://www.cult.ufba.br/enecult2007/ElizabethLoiola_PauloMiguez.pdf)

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Márcio José Cubiak - 47 8835 7202
Cientista Social e Produtor Cultural.
Mestrando em Desenvolvimento Regional.
Conselheiro Municipal de Cultura - Blumenau

http://respublicacultural.wordpress.com/
MSN - mjcubiak@msn.com
TUIT -@marciojcubiak

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sobre telhados que caem

Sobre telhados que caem
Viegas Fernandes da Costa

“Grande é a cidade quando os arrebaldes do seu espírito vão além dos cumes e dos mares, e quando, pronunciando seu nome, há de se iluminar para a posteridade toda uma jornada da história humana. A cidade é forte e bela quando seus dias não se reduzem à invariável repetição de um mesmo eco.” Retiro a citação do livro “Ariel”, escrito pelo uruguaio José Enrique Rodó em 1900, e apesar dos anos que nos separam do texto, não vejo nada mais oportuno para a Blumenau dos nossos tempos. Rodó escreve ainda que “apenas a extensão e a grandeza material da cidade não podem dar a medida para calcular a intensidade de sua civilização”, e que “soberbas aglomerações de casas são para o pensamento um canal mais inadequado do que a absoluta solidão do deserto, quando não é o pensamento o senhor que as domina”.
Lembrei-me de Rodó porque me ocorreu que não é de shoppings, supermercados e canteiros floridos que se mede a grandeza e a força de uma aldeia e seu povo. Entretanto, e a despeito de toda a tragédia vivenciada em 2008, continuamos pensando como aqueles primeiros imigrantes, cuja miséria expulsou da Europa e empurrou para as margens do Vale do Itajaí. Ainda cremos que precisamos e podemos domar a natureza, que progredimos quando içamos chaminés e expandimos nossa malha urbana, e que só seremos respeitados na medida em que nossa população superar a das demais aldeias do nosso Estado. Queremos ser uma metrópole, mas sequer conseguimos evitar que os telhados da nossa cultura viessem ao chão, assim como não evitamos, em novembro de 1958, que parte da nossa memória se incendiasse.
Se em 2009 tivemos a ausência do Festival Universitário de Teatro, a suspensão do Salão Elke Hering, a interdição do Parque das Nascentes e a degradação do Museu Fritz Müller, o ano cultural em 2010 começou com a queda do telhado da Fundação Cultural e com a nossa Universidade impossibilitada de contratar professores em caráter efetivo. Preocupamo-nos em ampliar nossa visibilidade material, mas enterramos aquilo que nos poderia tornar perenes.
O que Rodó nos ensina é que os pilares da permanência de Atenas não estão nas pedras que edificaram a Acrópole, mas nos bens culturais que daquele solo se projetaram ao mundo. Assim, Blumenau só encontrará seu desenvolvimento sustentável na medida em que investir na constituição e preservação de bens culturais. Preferimos, entretanto, a barbárie.

*Artigo publicado no Jornal de Santa Catarina, 01/02/2010, p. 2.