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sábado, 20 de março de 2010

“Cultura? Bah...”

Artigo publicado no SANTA no dia 18/03/2010 por ANAMARIA KOVÁCS


É mais ou menos assim que se manifesta muita gente quando ouve essa palavrinha; alguns até fazem um gesto depreciativo com a mão, acompanhado de um sorrisinho. Felizmente, não são todos que pensam assim. Aliás, a palavra “cultura” é tão abrangente que gera polêmica até sobre a sua definição. Como essa é uma questão muito cabeluda, não vou entrar nela aqui, que não sou boba...

Refiro-me ao tratamento que a pobrezinha da cultura, e suas manifestações concretas, vêm recebendo em Blumenau. Houve tempo em que ela era mais prestigiada: encenavam-se peças de teatro, orquestras apresentavam-se no Carlos Gomes, artistas de prestígio nacional vinham tocar aqui; e não era só a “elite” que usufruía da cultura, porque ela abrange tudo que um povo, ou uma etnia, ou uma tribo, produz, como mitos, danças, artes plásticas, artesanato, música e um enorme et cetera.

E o que acontece quando a cultura é subordinada à política? Acontece o que estamos presenciando em nossa cidade: ela é desprezada em favor de interesses, utilizada para beneficiar apadrinhados, ignorada quando serve apenas para melhorar a qualidade de vida do povo, mas não dá prestígio aos poderosos da vez. A classe artística, por seu lado, faz o que pode: bota a boca no trombone, esperneia, manifesta-se – mas é pouco respeitada. Pudera, na cabeça de muitos, artista é sinônimo de sonhador, preguiçoso, maluco, marginal. Claro que não é assim, mas esse preconceito impede que a classe seja vista com seriedade, e que a cultura por ela representada seja considerada algo útil à sociedade.

Quando privado de cultura, o cidadão inicia uma busca, meio instintiva; acaba assistindo a baboseiras na televisão. Desacostumado a ler, nem entra em livrarias, ou, quando procura um livro, leva um best-seller qualquer. Se vai ao cinema, acontece o mesmo: sem espírito crítico, qualquer película serve. Diante de uma obra de arte, cala-se, porque é impossível compreendê-la. Sem vivência cultural, o cidadão transforma-se numa pessoa sem opinião, facilmente manipulável. E este é o tipo preferido de todo candidato em ano de eleição: o maria-vai-com-as-outras, o ingênuo que crê em promessas mirabolantes.

Frequentei o Casarão das Oficinas, como aluna do curso de Desenho, durante dois anos; o estado do prédio é lamentável, por falta de conservação; o desprezo pela cultura manifestava-se nas salas precárias, nas mesas desmanteladas, na sujeira, nas paredes carentes de pintura, no sofá encardido da entrada. Os professores lutavam para conseguir, ao menos, cadeiras em número suficiente para todos os alunos, e, no caso da minha turma, o espaço nas mesas desconjuntadas era tão pequeno que acabávamos nos estorvando uns aos outros. Agora, nem isso temos mais.

ANAMARIA KOVÁCS

sexta-feira, 12 de março de 2010

Escolinha e casarão

Por Maicon Tenfen em sua Coluna no Santa

Por que não me surpreendo com o descaso do poder público de Blumenau em relação à Escolinha de Artes Monteiro Lobato e ao Casarão das Oficinas? Porque, óbvio ululante, o município simplesmente NÃO POSSUI política cultural. Ou, por outra, até possui no papel, mas a falta de verbas, de pessoal e de bom senso impedem que as palavras se transformem em ações.

Quando surgem problemas de logística ou infraestrutura – é o caso tanto da diminutiva “escolinha” quanto do aumentativo “casarão” – a tendência é que uma autarquia empurre o “pepino” para outra, e assim nada se resolve. Se a Vila Germânica fosse tragada por uma cratera e ficasse coberta de lama, aposto que conseguiríamos reconstruí-la até outubro. Por outro lado, quando o assunto é educação ou cultura – pelo menos quando se trata de uma cultura diferente do pseudogermanismo que nos empurram goela abaixo –, que caia o mundo e o céu, pois nada podemos além de cruzar os braços.

Faz algum tempo, comentei neste espaço a urgência de políticas culturais consistentes em qualquer sociedade. Se não me falha a memória, dei o exemplo do Rei Salomão. Depois de construir o Templo de Jerusalém, um colosso arquitetônico para a época, ele compreendeu que as pedras rapidamente se tornariam poeira. Então ordenou que escrevessem ou organizassem muitos dos livros que hoje compõem a Bíblia. Sábio governante! As Bíblias se encontram em praticamente todas as casas do Ocidente. E o Templo? Que fim levou o Templo de Jerusalém?

Aqui em Blumenau, parece que a norma é edificar os paredões da efemeridade. Só isso não basta. Também precisamos escrever a Bíblia, isto é, celebrar nossa cultura através da arte e da educação.

* * *

Felizmente, nem só de marasmo vive o trâmite cultural da cidade. Chegou em boa hora o Pequeno Álbum de Viegas Fernandes da Costa, livro que será lançado hoje à noite no Farol. Composto por 44 textos curtos – minicontos? poemas em prosa? crônicas líricas? – é o terceiro título do autor, e representa, a meu ver, o ponto alto de sua obra. Digo isso pela da intensidade do material selecionado e do quão difícil é, hoje em dia, comunicar subjetividades sem parecer piegas. Não obstante o tamanho reduzido, Pequeno Álbum não foi feito para se ler de uma só vez. É o tipo de livro que você deixa na cabeceira, para meditação noturna. Quem quiser saber mais sobre a obra e seu autor, basta acessar o meu blog.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Casarão Caiu!

Daiana Schvartz*

Cidades preocupadas com o desenvolvimento qualitativo de sua população fazem um forte investimento na área cultural. Para que tenhamos casas cheias em dias de peças de teatro, exposições, apresentações musicais e de dança é preciso de fomento através de iniciativas públicas. A formação de um público e de futuros artistas depende de uma cidade que queira respirar arte, caso contrário, só teremos casa cheia quando chegam à cidade apresentações grotescas e de estética televisiva.

Dentre as políticas no campo do fomento da cultura, certamente o maior destaque, era o Casarão das Oficinas. Um espaço gerenciado pela Fundação Cultural de Blumenau que oferecia para a população várias oficinas artísticas nas diversas áreas como teatro, artes visuais, música, artesanato entre outros. Este espaço ainda que precário, propiciava trocas, divulgações, circulação e experiências estéticas.

Através dos debates das conferências municipais de cultura em todo Brasil, a sociedade civil pôde se colocar frente ao poder público para falar, questionar e cobrar suas demandas sobre arte, cultura e cidadania em seus municípios. Em Blumenau, no mês de setembro do último ano foi realizada a IV Conferência Municipal de Cultura. Na conferência uma das principais demandas discutidas foi a de garantir políticas públicas e gratuitas de cultura. Entre estas políticas, estava a manutenção e a regularização do Casarão das Oficinas. No entanto, devido a irregularidades administrativas e trabalhistas, ao invés de regularizar a situação, a Fundação optou simplesmente em fechar o espaço no último mês de dezembro. Este acontecimento é mais um exemplo da indiferença com a cultura das sucessivas administrações da Fundação Cultural nos últimos anos.

Blumenau precisa urgentemente de políticas públicas de Estado que garanta sua permanência. O quadro de políticas que tem se instalado hoje, beira o amadorismo e é movido por políticas momentâneas, insuficientes e eleitoreiras.

* Artista Visual