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segunda-feira, 11 de julho de 2011

Pela vida nas cidades (Texto completo)

Seja através da museificação da cidade ou pela difusão de uma cidade espetacular, a noção de marketing urbano produziu uma cidade pensada como imagem para o turista, mas restringiu as possibilidades de vivências públicas. Nas últimas décadas, Blumenau construiu uma paisagem carregada de referências a uma concepção de passado, mas que de forma complementar reproduz modelos muito próximos de um padrão mundial das redes de fast-food, shopping centers e parques temáticos. Concomitantemente passa por um processo de privatização dos espaços públicos pela especulação imobiliária e a conseqüente gentrificação (enobrecimento das áreas com expulsão da população mais pobre). Através de políticas públicas e investimentos privados áreas “revitalizadas”, são na verdade, revalorizadas pelo mercado imobiliário e com isso, levam a população empobrecida ou esteticamente transgressora para distâncias ainda maiores das melhores áreas e dos equipamentos urbanos. Ou seja, normalmente os projetos que pretendem revitalizar estão justamente implicados em retirar as vivências dos territórios.

Este processo de empobrecimento da experiência urbana tornou o medo permanente e, por isso, a constante reivindicação da própria população de mais vigilância e mais controle sobre si mesma. Só que esta mesma vigilância acaba produzindo ainda mais medo: o medo da rua, o medo da diferença, medo do contato e, sobretudo, o medo de estar fora do controle. Esta mercantilização do espaço nos divide e separa, e com isso, nos retirou o poder de decisão e ação sobre as possibilidades de circulação, socialização e trocas no espaço urbano. Além disso, não cessa de nos retirar a própria possibilidade da existência de uma experiência física urbana enquanto prática cotidiana.

Evidentemente que este caminho não é de mão única. Há muitos exemplos de experiências críticas a esta concepção de espaço e de cidade: desde os poemas de Baudelaire, a contracultura da geração beatnik, a deriva dos Situasionistas e as inúmeras intervenções artísticas nas cidades. Atualmente, podemos indicar uma nova “primavera das ruas” através das ocupações das praças de Tahir no Cairo, Plaza Del Sol em Madrid e no caso de Blumenau, as recentes ocupações da Prainha através do movimento que vêm se identificando como “Vamosiuní”. Estes movimentos, normalmente de jovens, indicam a necessidade de revitalizar as ruas, mas no sentido vital que esta palavra carrega, não simplesmente no sentido econômico. Isto será possível somente com a presença da vida e do sentido mais original da palavra política (pólis=cidade). Revitalizar não se trata de construir mais cenários, mas que possamos discutir as formas de apropriação do espaço público. É primordial a participação da população nas decisões sobre a cidade, mas, além disso, neste momento precisamos retomar a experiência efetiva e a vivencia em espaços urbanos. A cidade precisa deixar de ser cenário para passar a ser efetivamente um palco.

*Historidor e professor da Furb.

terça-feira, 18 de maio de 2010

CAMINHADA CENTRO PATRIMÔNIO EM MOVIMENTO




Estão abertas as inscrições para a terceira (última desta etapa) caminhada do projeto “Patrimônio em Movimento: história, memória e cidade”. Ela acontecerá neste próximo sábado, dia 22/05 com um roteiro proposto pela região Central de Blumenau, tendo início às 15hs na Praça Marechal Mascarenhas de Morais (conhecida como Praça da Fonte Luminosa, próximo ao Terminal Urbano da Fonte). O objetivo é percorrer todo trajeto selecionado, fazendo registros fotográficos, reflexões históricas e interações com o ambiente.

Para se inscrever envie e-mail para patrimonioemmovimento@gmail.com com o assunto “Inscrição para Caminhada Centro”. A inscrição é fundamental para a participação no evento e para o envio do material de apoio, bem como para a confecção de declarações de participação.

Terceira Caminhada “Patrimônio em Movimento: história, memória e cidade”

Início: 15hs

Término: 18hs

Ponto de Partida: Praça Marechal Mascarenhas de Morais (conhecida como Praça da Fonte Luminosa, próximo ao Terminal Urbano da Fonte)


segunda-feira, 5 de abril de 2010

CAMINHADAS DO PROJETO “PATRIMONIO EM MOVIMENTO


INSCRIÇÃO PARA CAMINHADA DO PROJETO PATRIMÔNIO EM MOVIMENTO


Estão abertas as inscrições para a primeira caminhada do projeto “Patrimônio em Movimento: história, memória e cidade”. Ela acontecerá neste sábado, dia 10/04 com um roteiro proposto pela região da Rua São Paulo, tendo início às 09hs na Praça dos Músicos (antiga “Gaitas Hering”). O objetivo é percorrer toda a extensão da rua até o Praça Victor Konder (Praça da prefeitura), fazendo registros fotográficos, reflexões históricas e interações com o ambiente.

Para se inscrever envie e-mail para patrimonioemmovimento@gmail.com com o assunto “Inscrição para Caminhada Rua São Paulo”. A inscrição é fundamental para a participação no evento e para o envio do material de apoio, bem como para a confecção de declarações de participação.

Primeira Caminhada “Patrimônio em Movimento: história, memória e cidade”

Início: 9hs

Término: 12hs

Ponto de Partida: Praça dos Músicos (antiga “Gaitas Hering”)

Traga sua máquina fotográfica!


As próximas caminhadas terão com roteiro Rua João Pessoa/Rua Sete de Setembro no dia 08/05, e região central da cidade (Rua XV de Novembro) no dia 15/05.

Maiores informações acesse o blog: http://patrimonioemmovimento.blogspot.com/

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Patrimônio em Movimento






Apresentação





Darlan Javaer Schimitt[1]
Ricardo Machado[2]

Blumenau passa por dois movimentos diferentes e complementares que constroem sua urbanização e as experiências humanas no espaço da cidade. De um lado, um profundo investimento na folclorização do cotidiano através de uma estética kitsch,[3] que foi iniciado nos anos 1980, e levou para um contínuo investimento econômico e discursivo na identidade germânica e surgimento de uma cidade parque-temático. Erigida como uma cidade cenográfica, feita para o turista e por isso carregada de simulacros, Blumenau tornou-se um dos exemplos típicos da sociedade do espetáculo.[4] O curioso é que este dito “resgate” da identidade local, nada mais tem feito do que garantido um processo de homogeneização do espaço, já que não dialoga com o cidadão local e sim com o turista acidental. Por isso, se torna urgente uma maior problematização dos lugares de memória da cidade. Não se trata de buscar distinguir aquilo que é mais ou menos verdadeiro, mas, sobretudo, reconhecer e estimular a reflexão sobre os investimentos sociais e institucionais sobre a memória. Afinal, lembrar e preservar, significa também esquecer e destruir. E o espaço urbano através de suas ruas, construções e monumentos se tornam uma das formas de ler a narrativa sobre a história de uma sociedade.
Diante desta leitura dos processos de alterações urbanísticos na cidade de Blumenau, que buscamos a necessidade de realizar o projeto visando refletir sobre as questões relacionadas e história local, os investimentos discursivos na memória através da política patrimonial e as possibilidades de vivências urbanas. A autora Paola B. Jacques define que este processo de “espetacularização das cidades está diretamente relacionado com a diminuição da participação popular, mas também a ausência da própria experiência física enquanto prática cotidiana, estética e artística” (JACQUES, 2005.p. 16). É preciso reafirmar as relações entre o corpo físico e o corpo da cidade, ou seja, o simples ato de andar pela cidade pode assim se tornar uma crítica ao urbanismo e enquanto disciplina prática de intervenção nas cidades. Assim, com um olhar interessado pela paisagem e pelas pessoas, compreendemos a cidade como uma texto que vem sendo escrito pela humanidade através dos diferentes conceitos estéticos, políticos e econômicos. Afinal, como definiu Pesavento, as ruas acabam abrigando tanto “os grandes acontecimentos como os pequenos incidentes do cotidiano”(PESAVENTO, 1992. p.8)
Lidando com estas reflexões que surgiu o projeto “Patrimônio em movimento: história, memória e cidade”. Através dele buscamos sensibilizar a relação dos sujeitos com a memória e a política de patrimônio na cidade, bem como, discutir as relações entre memória e cotidiano nos processos de construção dos espaços urbanos. Para isso, será realizado um processo de formação teórica e técnica em educação patrimonial e fotografia, visando qualificar a discussão e sensibilizar a observação. Em seguida, realizaremos quatro caminhadas com roteiros previamente estabelecidos, objetivando discutir o patrimônio cultural e proporcionar reflexões sobre vivências urbanas através destas caminhadas.
Por último, é preciso afirmar que não tomaremos como patrimônio somente os espaços definidos pelo poder público local e estadual. Os “lugares de memória[5]” elencados pela própria vivência citadina, são os espaços pouco discutidos no cotidiano. Desta maneira, ao longo do processo serão feitos registros fotográficos, posteriormente apresentados em uma exposição e a constituição de acervos de novos registros sobre os espaços da cidade.
[1] Graduado em História pela Universidade Regional de Blumenau - FURB e aluno do Programa de Pós-Graduação (Mestrado) em História do Tempo Presente da Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC. Atua como servidor no Centro de Memória Universitária da FURB.
[2] Graduado em História pela Universidade Regional de Blumenau - FURB e mestre em História Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Atualmente é professor do curso de História da FURB.
[3] Como já longamente foi discutido pela historiadora Maria Bernadete Ramos Flores na obra Oktoberfest (FLORES, 1998).
[4] Fazendo referência ao conceito de DEBORD (1997). Além dele, autores contemporâneos como Paola Berentein Jacques fazem uso da sociedade do espetáculo para discutir as apropriações das experiências urbanas pelo capital. (JACQUES, 2003)
[5] “Os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notoriar atas, porque essas operações não são naturais.” (NORA, 1993, p.13)








INSCRIÇÕES GRATUITAS


através do endereço eletrônico patrimonioemmovimento@gmail.com






sábado, 28 de novembro de 2009

Derrubem os muros!




Os esforços de todos os poderes estabelecidos para aumentar os meios de manutenção da ordem nas ruas culmina finalmente na supressão das ruas.

Guy Debord. A Sociedade do Espetáculo. p.172


Blumenau passa por dois movimentos diferentes e complementares que constroem sua urbanização e as experiências humanas no espaço da cidade. De um lado, um profundo investimento na folclorização do cotidiano através de uma estética kitsch,[1] que foi iniciado nos anos 1980, e levou para um contínuo investimento econômico e discursivo na identidade germânica e surgimento de uma cidade parque-temático. Erigida como uma cidade cenográfica, feita para o turista e por isso carregada de simulacros, Blumenau tornou-se um dos exemplos típicos da sociedade do espetáculo[2]. O curioso é que este dito “resgate” da identidade local, nada mais tem feito do que garantido um processo de homogeneização do espaço, já que não dialoga com o cidadão local e sim com o turista acidental. Assim, mesmo que carregada de uma imagem histórica, não faz necessariamente referências do passado local, mas, sobretudo, reproduz modelos muito próximos de um padrão mundial das redes de fast-food, shopping centers e parques temáticos.

O outro movimento refere-se da privatização dos espaços públicos pela especulação imobiliária e a conseqüente gentrificação (enobrecimento das áreas com expulsão da população mais pobre da cidade). Através de políticas públicas e investimentos privados áreas “revitalizadas”, são na verdade, revalorizadas pelo mercado imobiliário e com isso, levam a população empobrecida para distâncias ainda maiores das melhores áreas e dos equipamentos urbanos. Ou seja, normalmente os projetos que pretendem revitalizar estão justamente implicados em retirar as vivências populares dos territórios.

Este processo fica ainda mais evidente nas discussões políticas locais em que a tônica esteve na restrição de liberdades democráticas fundamentais da população: o toque de recolher, a proibição de bebidas nas praças, a perseguição dos malabaristas, a restrição de grupos próximos das escolas, a implantação incessante de câmeras pelas ruas etc. Estas restrições pontuais e sutis estão pautadas em uma divisão da sociedade entre o “homem de bem” e o “homem do mal” e, por isso, ao invés de buscar soluções para os problemas de conflitos urbanos, acabam aumentando a segregação social e simbólica e esvaziando ainda mais as possibilidade de vivências no espaço público. Esta concepção de cidade tende a se caracterizar como uma cenografia em tempo real e permanente, onde a experiência urbana cotidiana acaba resumida a circulação disciplinada por princípios segregadores e despolitizadores. Este processo de empobrecimento da experiência urbana tornou o medo permanente e, por isso, a constante reivindicação da própria população de mais vigilância e mais controle sobre si mesma. Só que esta mesma vigilância acaba produzindo ainda mais medo: o medo da rua, o medo da diferença, medo do contato e, sobretudo, o medo de estar fora do controle.

Não há o que comemorar com os vinte anos de queda do muro de Berlim. Desde então muros reais e simbólicos não cessam de serem erigidos em nossas cidades. Esta mercantilização do espaço nos divide e separa, e com isso, nos retirou o poder de decisão e ação sobre as possibilidades de circulação, socialização e trocas no espaço urbano. Além disso, não cessa de nos retirar a própria possibilidade da existência de uma experiência física urbana enquanto prática cotidiana.


Derrubem os muros!

Eles não servem para nos proteger.

Eles servem para nos separar.


Ricardo Machado, novembro de 2009.


[1] Como já longamente foi discutido pela historiadora Maria Bernadete Ramos Flores na obra Oktoberfest

[2] Fazendo referencia ao conceito de Guy Debord de 1967. Além dele, autores contemporâneos como Paola Berentein Jacques fazem uso da sociedade do espetáculo para discutir as apropriações da experiências urbanas pelo capital.